14.12.08

Napoleoniana II

Mais um livro mal traduzido sobre o Grande Homem. A vítima desta vez é o Napoleão de Thierry Lentz, coisinha de cento e poucas páginas da coleção francesa Que sais-je?, para estudantes primários. O algoz é uma tal Constancia Egrejas.

Já ao folhear o livro na livraria, deparei com a seguinte bobagem na última página: “a burguesia o sustentou tanto que suas guerras tiveram sucesso”. O original, que desconheço, decerto diz "contanto que suas guerras tivessem sucesso”, sendo fato notório que a burguesia abandonou o imperador da França quando este começou a perdê-las.


Egrejas também ignora que nomes de reis e príncipes (menos os contemporâneos, exceção feita a Balduíno da Bélgica) devem ser aportuguesados. As esposas de Napoleão foram imperatrizes, portanto são Josefina e Maria Luísa, não Joséphine e Marie-Louise (ou Maria Louisa, como esta arquiduquesa era chamada em sua Áustria natal). A enteada dele, Hortense, foi rainha da Holanda, portanto Hortência. Todos os irmãos dele foram reis e príncipes, de modo que Joseph é José, Lucien é Luciano, Pauline é Paulina, Jérôme é Jerônimo, etc. Essa tradutora desconhece ainda quem foi Puchkin (a tradução conserva "Pouchkine", como o dramaturgo russo é chamado pelos franceses), que o rio Rhône é o Ródano, entre outras omissões graves. A palavra règne é constantemente traduzida como "reino", não como "reinado", originando frases sem sentido como "O reino imperial tornou-se uma epopéia" (pág. 158).

A maioria das pessoas que prestam serviço de tradução são mulheres, pois é um trabalho que pode ser feito de casa. Existem excelentes tradutoras no Brasil, mas não de História. Eu sei bem, pois prestei serviço para o The History Channel durante anos, e nunca vi uma tradutora que tivesse conhecimento profundo ou mesmo interesse particular nos assuntos históricos que vertia para o português. Mulher odeia História. Não o ignorava o grande Machado ao observar no Dom Casmurro: “Respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos”. Era de se esperar, no entanto, que uma editora universitária fosse mais cuidadosa com suas traduções que um canal de TV a cabo.

Querem a prova de que isso é verdade e não machismo? Comparem duas biografias do Grande Homem lançadas pela Jorge Zahar Editor, ambas em 2005.

A primeira, Napoleão – Uma Biografia Política, de Steven Englund, não só tem o já mencionado problema de tradução de nomes, como também mostra uma caricatura de Napoleão bebê roubando a coroa de Luís XVIII enquanto este dorme, e embaixo a inscrição “Roubando a coroa do papa” (decerto o original dizia papa, “papai”). Quem traduziu? Maria Luiza X. de A. Borges.

A segunda é o formidável Napoleão – Uma Biografia Literária, de Alexandre Dumas, que não apresenta problema algum de tradução e, ao contrário, é um primor de correção histórico-lingüística em português. Quem traduziu? André Telles.

I rest my case, Your Honor.

A Globo não é mais a mesma; graças a Deus!

Muitos anos atrás a rede Globo brindava seu público com teleteatros, talvez para se redimir por seu fundador, Roberto Marinho, ter sido um dos maiores lacaios da Ditadura Militar que tanto perseguiu o teatro neste país. Anos depois, sem a Ditadura, mas com a imbecilidade do público bem arraigada graças ao retrocesso cultural imposto pela Ditadura, acabaram-se os teleteatros da Globo, suas novelas ficaram mais numerosas e ainda menos inteligentes, e estreou o Big Brother, sem dúvida o ponto mais baixo já atingido por qualquer mídia em qualquer sociedade ou época. A minissérie Capitu, cujo último dos seus cinco episódios foi exibido ontem, é uma felicíssima retomada dos teleteatros da década de 70, com recursos técnicos de hoje.

A idéia de traduzir as insinuações e entrelinhas de Machado de Assis usando recursos teatrais e alegorias burlescas não é nova — houve nos anos 80 uma tentativa patética de verter nesse formato o Memórias Póstumas de Brás Cubas —, mas nunca foi tão bem-sucedida quanto nesta versão de Dom Casmurro adaptada por Euclydes Marinho para a TV. A direção de Luiz Fernando Carvalho é nada menos que perfeita, o elenco é impecável e a fotografia de encher os olhos. As vinhetas mostrando pedaços de fotos e recortes de jornais antigos retrata maravilhosamente as recordações fragmentárias do memorialista Bentinho. Este recebe seu apelido num trem da Central, não num bonde, e o Otelo a que assiste não é o de Verdi, mas o de Orson Welles, anacronismos expressionistas que acentuam melhor que qualquer montagem naturalista, de época ou não, a universalidade e perenidade do tema. O genial Bruxo do Cosme Velho teria ficado orgulhoso.

Aliás, leio na Veja que o subgênero da telenovela anda perdendo audiência, coisa impensável anos atrás. Notícias como essa, aliadas a obras da qualidade de Capitu, tornam mais fulgurante a luz que desponta no fim do túnel.

4.11.08

Para calar a boca dos pseudojornalistas

O relançamento do livro Cale a Boca, Jornalista!, de Fernando Jorge, não poderia ser mais oportuno que agora, quando o desencanto com a democracia, causado pela corrupção do governo petista, tem levado não apenas nosso ignorante e desmemoriado povo, mas até indivíduos supostamente bem informados, como jornalistas, a lançar olhares nostálgicos para a criminosa ditadura militar brasileira, enxergando nela uma era dourada em que “havia ordem e ninguém roubava”.

Um texto inacreditável tem circulado pela internet, da autoria de um tal Paulo Martins, suposto jornalista que escreve ou escrevia para a Gazeta do Paraná. Transcrevo aqui só uns trechos do factóide, pois meu estômago é fraco:


Não lembro de ter sido perseguido, como insistem em afirmar que era o hábito da época aqueles que, por falta de argumento para uma retórica razoável, apelam sem disfarces para o desvirtuado e corrosivo “ouvi dizer”.

Que ditadura era aquela que me permitia votar? Que nunca me proibiu de tomar uma cervejinha num desses bares da vida após as vinte e três horas? Ou num restaurante de beira de estrada?

Que ditadura era aquela que (eu não fumo) nunca proibiu quem quer que seja de fumar? Que ditadura era aquela que nunca usou cartão corporativo para as primeiras damas colocarem até botox no rosto ou para outros roubarem milhões de reais do povo brasileiro?

Vi, sim, perseguições, porém contra elementos de alta periculosidade à época (...)


Minha reação ao ler tamanha sandice foi não ter reação alguma. O que responder a alguém que acha que não houve ditadura militar no Brasil só porque não lhe proibiam que fumasse ou que bebesse cervejinhas? (difícil é entender por que uma ditadura proibiria tais coisas...) O que responder a alguém que acha que não houve perseguições só porque ele não foi perseguido, dessa forma escarnecendo do sofrimento das pessoas que, sim, foram perseguidas, ou tiveram parentes, cônjuges, amigos arbitrariamente presos, torturados, assassinados, apenas por não querer uma ditadura neste país? Que dizer a quem afirma que havia eleições livres durante os governos militares? Valeria a pena mandar um infeliz desses — cujo prenome me envergonho de compartilhar — se informar minimamente sobre as atrocidades cometidas nos anos 70 contra pais de família, operários, profissionais liberais, intelectuais, estudantes, mas principalmente contra seus colegas de profissão? Valeria a pena o incômodo? Decidi que não.

Vale a pena, no entanto, alertar a nova geração contra os pseudojornalistas; pois, que um ignorante acredite que só terroristas perigosos foram perseguidos pelo governo totalitário, é estupidez; mas que divulgue tal estupidez através de um jornal, influenciando outros ignorantes, é pernicioso.

Por isso o livro de Fernando Jorge volta em tão boa hora. Nada como relembrar as censuras, perseguições, encarceramentos, socos, coronhadas, choques elétricos nos testículos, paus-de-arara, tiros e outros argumentos impingidos contra homens de imprensa pelos políticos de uniforme que se autodenominavam majores, coronéis e generais. Relembrar para quê? Para demonstrar à farta que todos os que praticam jornalismo reacionário, a exemplo do pseudofilósofo Olavo de Carvalho — escrevinhador de uma autobiografia intitulada O Imbecil Coletivo —, nada fazem além de lamber botas que eventualmente lhes chutarão a cara.


Cale a Boca, Jornalista! demonstra também quão pouco aprenderam esses jornalistas lambedores de coturnos com a experiência sofrida pelo ícone deles, Carlos Lacerda, o corvídeo que, após crocitar incansavelmente contra quatro presidentes democráticos e constitucionais, ajudando assim a precipitar o nefasto Golpe de 64 na esperança de que seus amigos militares o empoleirassem na Presidência, acabou depenado por eles.

A pesquisa de Fernando Jorge vai além da selvageria fardada, abrangendo os primórdios do ódio ao prelo no Brasil colonial — com destaque para o ínclito José Bonifácio mandando esbordoar o editor do periódico A Malagueta —, sem deixar de fora jornalistas que perseguiram jornalistas, como o vampiro da democracia Carlos Lacerda, que fez apreender edições do Correio da Manhã e outros jornais quando governador da Guanabara, em 1961.

Esta quinta edição de Cale a Boca, Jornalista! traz ainda reflexões pertinentes sobre governo, como a total inutilidade do Senado:

Devemos adotar o unicameralismo, a estruturação do parlamento numa só câmara ou assembléia legislativa. O Senado no Brasil é uma excrescência, um desperdício, macaquice do sistema norte-americano. É um peso morto, um parasita, não vale nada, apenas escorcha o povo. Custou aos cofres públicos, no ano de 1987, mais de três bilhões de cruzados! Sustenta mais de seis mil funcionários! A gráfica do Senado, por exemplo, tem 1.583, e entre eles a colunista social Consuelo Badra. Suas Excelências, os senadores, possuem um mandato de oito anos... Todos mamando nas tetas do Estado. Para quê? Basta uma câmara de deputados. Não há coisa alguma capaz de impedir que esta execute as funções privativas do Senado, como autorizar, por exemplo, a obtenção de empréstimos externos a estados e municípios, ou aprovar a designação de ministros dos tribunais superiores.

25.10.08

Outubro dos Paulos

Os lançamentos de autores nacionais da Geração Editorial neste mês foram todos escritos por Paulos: Suicídio, de Paula Fontenelle, As Maluquices do Imperador, de Paulo Setúbal, e Jack, o Estripador, do humilde mantenedor deste blogue. Recomendo esses três livros paulinos.


Ela estava de férias em Miami quando recebeu a ligação da irmã informando que o pai tinha se matado com um tiro na cabeça. Antecipar a volta representou uma nova fase. A jornalista Paula Fontenelle queria saber o por que e não mediu esforços. “O que leva alguém a tirar a própria vida? Este ato, pode ou não ser prevenido?” Na busca por explicações, Paula voltou à infância para resgatar o passado do pai. Conta detalhadamente das dificuldades dele, do medo de falhar, da forma rígida de ser, agir, das fragilidades e dos sentimentos recolhidos que ele transportava para o alcoolismo, como um refúgio. Em Suicídio - O Futuro Interrompido há histórias, relatos de quem esteve à beira de cometer o ato, pesquisa e um alerta com informações sobre prevenção.



“Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente, que D. Pedro viu no palco, pela primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma francesinha de matar. Uma boneca de luxo, toda pluma, frágil como um bibelô. E tão loira! E tão fresca! E dona duns olhos tão grandes, tão liricamente azuis!” O trecho fala do primeiro amor de D. Pedro, quando, aos 17 anos, teve a primeira loucura da adolescência e aventurou-se na paixão por Noemi. Em todos os capítulos as histórias da família real são contadas em detalhes, rico vocabulário e com muito humor.



O que torna Jack mais interessante que todos os outros assassinos seriais é o fato de nunca ter sido preso e de não termos idéia de quem ele foi, nem por que cometeu seus atrozes assassinatos. Ele é uma sombra, um enorme ponto de interrogação traçado com sangue. O Estripador se transformou em lenda porque os mitos brotam das lacunas deixadas pela História. Tentar adivinhar a identidade do criminoso de Whitechapel ainda é a principal pergunta ou mistério policial da atualidade.
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Mais detalhes na página da Geração.

13.10.08

Alice no país da suruba e do amadorismo

No tempo em que morei na ultraprovinciana Londrina — período que costumo denominar minha Idade das Trevas pessoal — fui levado a participar dum desses chamados encontros de casais, em que casais ouvem outros casais falarem sobre como é estar casado. Sendo o abominável evento promovido por uma paróquia, não me surpreendeu sua péssima organização; o que sim me surpreendeu foi tamanha desorganização ser deliberada e não acidental. Segundo um dos (des)organizadores, pessoas que já conheciam bem este ou aquele ofício no evento não eram reaproveitadas na mesma ocupação a fim de evitar que se tornassem “profissionais”, o que supostamente prejudicaria o seu “espírito de entrega”, ou algum outro clichê católico de que, por estar afastado, graças a Deus, da religião, não me recordo agora.

Em outras palavras, o amadorismo seria uma coisa mais agradável a Deus que o profissionalismo. Não admira Ele ser brasileiro.

Esse mesmo espírito retrógrado predomina até nas modernas telecomunicações do Brasil, como demonstra a baixíssima qualidade de Alice, a nova série brasileira da HBO — pronunciada êitch-bi-ou pelos macaquinhos daqui em vez de agá-bê-ó —, que está desembolsando nada menos que um milhão por episódio dessa produção, cujos quadros são todos ocupados por amadores, a começar pelo elenco. Alice trata de uma garota do interior que vem a São Paulo e se deslumbra com este suposto “país das maravilhas”, dando a entender que o propósito oculto (mas nem tanto) da série é incentivar o turismo sexual na megalópole, assim como a igualmente execrável Mandrake (também da HBO) parecia ser um cartão-postal do Rio de Janeiro como paraíso de popozudas desfrutáveis.

A forma que o amadorismo autoral de Alice encontrou de tornar São Paulo a nova Cidade Maravilhosa foi transformar as paulistas em cariocas, ou no que as cariocas são para a mídia: libertinas. A tia de Alice é lésbica e maconheira, suas amigas e vizinhas são promíscuas, sua circunspeta chefe transa com o motorista paraguaio dentro do carro, Alice mal chega a Sampa e já começa a enfeitar a testa do noivo que ficou para trás, em Palmas, durante rodadas de sexo casual com sujeitos que mal conhece. “Venha para São Paulo e você vai sair da secura”, é o que esse programa de quinta categoria parece apregoar.

Os produtores se orgulham de não ter ocupado pessoas famosas no elenco; poderiam ter feito uma concessão aos atores de talento. Para o diretor, os intérpretes de Alice, por serem estreantes, são mais “intensos”. Eles são mesmo intensamente ruins, inclusive a protagonista, Andréia Horta, escolhida exclusivamente por ser o que os americanos chamam de um fine piece of ass. Dizer que os diálogos são infantis é insultar a inteligência das crianças. Nenhum personagem, a julgar pelo nefasto roteiro, tem QI acima de 5. Se a idéia era que os personagens falassem como todo mundo fala, o resultado foi que eles falam como todo imbecil fala.

Que fim levou a excelente equipe de Filhos do Carnaval, a única coisa boa produzida pela HBO nestas bandas?

17.9.08

15º Porto Alegre em Cena

Começou bem o meu acompanhamento do 15º Porto Alegre em Cena, com o imperdível espetáculo Conceição, no qual dançarinos do grupo recifense Experimental fazem de seus belos corpos ondas do mar, pontes, rãs alienígenas e sacrários.





Em Fausto, a atração mais esperada desta edição do melhor festival de teatro do Brasil, o lituano Eimuntas Nekrosius subverte mais uma obra clássica, como fez brilhantemente em 2006 com seu Otelo. O texto de Goethe é mero pretexto, ninguém reage conforme se espera. Em situações de angústia e estresse, os intérpretes empunham objetos inúteis, tropeçam a esmo, repetem gestos sem sentido à exaustão. Nem tudo são alegorias — como o osso gigante que alude ao diabo, ao cão —, é perda de tempo procurar entender ou interpretar cada abstração ou elemento cenográfico insólito, cumpre tão-somente ver e sentir.


O diretor britânico Peter Brook não fez jus à sua reputação com The Grand Inquisitor. Sim, Bruce Myers declama muito bem o seu monólogo, ninguém discute isso, mas o texto não é teatro, é um mero capítulo do romance Os Irmãos Karamázovi, em que ele, Myers, faz de narrador e personagem ao mesmo tempo, sem nuanças entre um e outro. "Então ele disse: 'Tal coisa'." Sorry, não funciona.








Ontem foi a vez da montagem argentina da peça do norueguês Jon Fosse, La Noche Canta Sus Canciones, cuja excelência, realismo, concisão e tensão permanente demonstram que não só de Ibsen vive a dramaturgia da Noruega.

26.8.08

Napoleoniana

Não acreditei nos meus olhos ao folhear Os Crimes de Napoleão. O autor do factóide, um tal Claude Ribbe, pretende que um dos maiores estadistas da História usou câmaras de gás para eliminar seus oponentes, prefigurando Hitler. “Será por falta de hospícios que lunáticos andam soltos por aí publicando livros?”, pensei.

A lembrança de que eu conhecia o nome desse potoqueiro restituiu-me a fé na minha visão. Minha namorada me presenteou, anos atrás, com uma biografia do general Dumas, cujo autor, que não é outro senão o tal Ribbe, afirma que esse oficial, negro, foi terrivelmente discriminado e injustiçado por Napoleão. Nada mais absurdo, tendo seu filho Alexandre, pai dos Três Mosqueteiros e grande admirador do seu, nutrido veneração incondicional pelo imperador, ao qual enalteceu numa peça em seis atos, de 1831. Esse Ribbe, portanto, não passa de um recauchutado propagador da lenda negra de Napoleão como Ogro da Córsega, criada pelos feudalistas do século XVIII e mantida acesa até hoje pelos medíocres de todas as denominações.

(O tradutor dos supostos Crimes é um tal S. Duarte, que, coincidência ou não, traduziu outro panfleto antinapoleônico de autoria do jingoísta inglês Paul Johnson. Em ambos a esposa de Bonaparte é transcrita como “Joséphine”, não como “Josefina”, sinal claro de que o tradutor é tão ruim quanto os livros que traduz.)

Também absurdo, embora divertido e incomparavelmente mais bem escrito, é o outro lado da moeda, El alma de Napoleón, tradução espanhola do panegírico de Léon Bloy, para quem o imperador era “a face de Deus nas trevas”, o grande precursor do Cristo guerreiro descrito no Apocalipse. Segundo Bloy, diz o Espírito Santo:

Vuestro Emperador ha hecho lo que tenía que hacer, muy exactamente, como los soles o los animales, sin comprender ni saber, y la magnificencia que apareció en él antes de que cayese no era, con anticipación, sino un reflejo infinitamente pálido de mi propio esplendor.

Esses dois extremos, a lenda áurea e a lenda negra do grande Corso, são magistralmente depurados em Napoleão Bonaparte – Imaginário e Política em Portugal (c. 1808-1810), um dos melhores livros sobre o imperador, e de longe o melhor já escrito por brasileiro, no caso uma professora da UERJ de nome extenso como um subtítulo, Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves.

Lenda dourada ou lenda negra, a exaltação ou o repúdio alimentam-se de fatos resultantes da mesma trama. Tanto pelo Ogro quanto pelo de Napoleão, o Grande, vislumbra-se um perfil que aponta para uma origem nebulosa, uma rápida ascensão ao poder, uma sede de dominação, uma vontade férrea e um declínio fulminante. Por conseguinte, os mesmos elementos combinados forjaram tanto a imagem do herói, como a do anti-herói.


Para os portugueses, invadidos por ele em 1808, Napoleão era, além do anticristo, “parido por mãe que a cão e gato ofertava d’amor venal tributo”,

Um homem com cabeça de donato
Tendo por barretina uma caneca,
Os olhos gázeos, boca de alforreca,
O pescoço estendido como gato.

Outros lusitanos, no entanto, como o poeta romântico Francisco Joaquim Bingre, entreviam o herói conquistador no lugar do tirano invasor.

Na Córsega nasceu o bravo Marte
O astro de Paris de França a glória,
O grande Napoleão de alta memória
O sem-pavor soldado Bonaparte
As águias de seu ínclito estandarte
Fez voar sobre as asas da vitória
Sua fama nas páginas da História
Não morreu, inda vive em toda a parte.

23.8.08

Opus incertum

Acho que Ibsen não escreveu sua peça Imperador e Galileu para o palco mais do que o foram Macário, de Álvares de Azevedo, ou A Tentação de Santo Antão, de Flaubert, obras mais afins de Platão que de Sófocles. As outras peças do norueguês, tão enxutas e econômicas, pouca semelhança apresentam com Imperador e Galileu, que narra a vida do ícone neopagão Juliano, o Apóstata, ao longo de duas partes, com cinco atos e miríades de personagens cada, o que significa que, se encenada na íntegra, não duraria menos que dez horas.

É compreensível, pois, que qualquer encenação dessa peça seja necessariamente uma amostra. No entanto, desconfio que esta montagem de Sérgio Ferrara esteja mais para opus incertum que para amostra, pois algumas falas que ouvi ontem no teatro do Sesc Santana não me soaram como Ibsen (ainda não terminei de ler a versão francesa da peça, com quase 400 páginas, que baixei da internet), mas antes pareceram pescadas do romance Juliano, de Gore Vidal.

Mesmo que tenham sido, o enxerto pouco ajudou. A encenação de Ferrara tem o único mérito de ser inédita no Brasil. Eu disse “único mérito”, não “mérito único”. A direção é ruim, a cenografia inexistente, os atores medíocres — à exceção do veterano Abraão Farc, que por dois minutos rouba a cena, como monge cego que amaldiçoa o imperador — e, como sempre, tentou-se compensar a total falta de idéia nos figurinos vestindo todo mundo de preto.

Oxalá o Porto Alegre em Cena deste ano me devolva o gosto de ver teatro no Brasil, já que haverá montagens do mundo todo; que me faça gostar de ver teatro brasileiro, isso seria pedir demais.

19.6.08

Cleópatra: o umbigo de Júlio Bressane

Não canso de me surpreender com a distância existente entre os cineastas brasileiros e o público que vai ao cinema. Aqueles, em sua maior parte, não produzem filmes para ser assistidos, mas para ganhar prêmios em festivais. Exemplo gritante é Cleópatra, de Júlio Bressane, que estreou em São Paulo há pouco, em dois cinemas somente, com apenas uma sessão cada. Antes disso, já tinha participado de vários festivais de cinema pelo mundo, e talvez sido premiado em alguns: quem é que fica sabendo? Agora, assisti-lo mesmo, quem é que assiste, se ele estréia em duas míseras salas na maior cidade do país?

Num primeiro momento, a revolta: os cineastas brasileiros são discriminados, veja-se o Indiana Jones estourando em mais de 50 salas só em São Paulo! Mas não é bem assim. Os cineastas brasileiros é que não estão muito interessados em espectadores. Seu interesse é filmar o próprio umbigo, com os governos estaduais e municipais a financiar tais exercícios de narcisismo. O próprio Bressane sabia que seu filme era inassistível ao fazê-lo, pois em algumas estréias chegou a pedir ao público que não se retirasse antes do término das duas infindáveis horas de projeção.

Alguns artigos atrás, neste mesmo blog, critiquei os diretores teatrais brasileiros de um modo que, acredito, se aplica aos cineastas brasileiros:

Por que os diretores não páram com seus experimentalismos, bons apenas para eles e para seus egos inflados, e não dão aos espectadores de teatro o que pertence aos espectadores de teatro?

Acredito que a raiz desse mal está na relutância em profissionalizar a arte cênica. Fazer um teatro dirigido ao público pagante, ou seja, um "teatro profissional", não é encarado como arte, e sim como comércio, ou prestação de serviço. Daí os diretores teatrais brasileiros insistirem no amadorismo, na experimentação, na encenação do próprio ego, o mais distante possível do texto para teatro. Afinal, se algum desses empirismos vazios e egocêntricos for bem-sucedido, o mérito recairá sobre o diretor, e não sobre algum grego morto há milênios.

Onde diz "teatro" e "grego morto há milênios", leia-se respectivamente "cinema" e "roteirista profissional".

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A analogia com o teatro tem muito a ver com o filme de Bressane, inclusive porque sua Cleópatra funcionaria melhor num palco. Os cenários, figurinos e atuações ostentam o artificialismo que só perdoamos em espetáculos ao vivo. Não conheço outros filmes seus, mas ele não parece ser um cineasta que sabe aproveitar os inúmeros recursos da sétima arte. Todos os vícios do cinema nacional estão presentes neste Cleópatra: cenas interminavelmente longas, monótonas, mal editadas, sem trilha sonora, sem qualquer música de fundo as mais das vezes, som ruim, o áudio mal sincronizado com falas de atores em algumas cenas externas. Estes são mais que ruins (Miguel Falabella como Júlio César, por Júpiter!), e Alessandra Negrini no papel-título pouco tem a recomendá-la além da bundinha escultural. Todas as seqüências foram captadas com uma única câmera imóvel, de modo que são todas estáticas, além de intoleravelmente demoradas, como se o diretor quisesse tirar o máximo proveito dos quatro cenários (que seriam suficientes no teatro, mas num filme são indigência pura) e das peças de mobiliário copiadas (mal) de originais egípcios, como o pequeno trono de Tutancâmon.

Apesar dessas reproduções algo toscas, o filme não tem qualquer pretensão à historicidade; a Cleópatra de Bressane é puramente estética, e os nomes históricos de Alexandria, Atenas, Roma, funcionam como meros arquétipos. Por isso mesmo teriam sido benvindas inovações e transgressões no figurino e nos cenários, que parecem reles imitações baratas do filme estrelado por Elizabeth Taylor ou de montagens meia-boca da Paixão de Cristo.

Gostei da subjetividade dos diálogos, mas ela não consegue disfarçar inteiramente a pobreza das idéias expressas em frases como “contemple com seu olhar” ou “o mundo chama-se mundo porque é imundo”. Pensarão alguns que basta conjurar César, Cleópatra e Marco Antônio como personagens para que qualquer tolice posta na boca deles se transforme automaticamente em Shakespeare?

O filme pelo menos evita lugares-comuns, como o da serpente que teria dado morte à lendária rainha do Egito. Esta, ao invés, bebe de um veneno que ocultava no próprio umbigo. Duvido que Bressane tenha feito de propósito, mas metáfora nenhuma poderia ser mais oportuna para mostrar o que está envenenando o cinema nacional: a adoração dos cineastas ao próprio umbigo.

25.3.08

Por que "Robin e Marian"?

Não é o filme favorito de ninguém, só meu. Afinal, está longe, muito longe, do Robin Hood de Errol Flyn, que mais parece o Peter Pan. Este filme de 1976, dirigido por Richard Lester, deveria chamar-se A Morte de Robin Hood, por se tratar da desconstrução, conquanto lírica, do mito. O mito do nobre que foi viver na floresta de Sherwood com seu alegre bando de foras-da-lei e sua mulher, Lady Marian, de onde, roubando dos ricos para dar aos pobres, combatia o maligno e arbitrário xerife de Nottingham, bem como ao desumano príncipe João-sem-Terra, regente da Inglaterra enquanto seu irmão, o galante e heróico rei Ricardo Coração de Leão, combatia na Terra Santa como Cavaleiro de Cristo. Com a volta do rei, tudo se normalizava, a justiça prevalecia, até que Robin Hood, envenenado por uma cruel freira, disparava do alto da abadia de Kirkley uma flecha, pedindo ao fiel amigo e escudeiro, João Pequeno, assim chamado por ser um gigante, que o enterrasse no local por ela atingido.

O Robin Hood de Sean Connery (que então surpreendeu ao mostrar-se bom ator) nada é além de um camponês bronco e tolo. Pior: está velho, isto é, com mais de quarenta anos, numa Idade Média em que a expectativa de vida para os homens beirava três décadas. Vinte anos depois de partir ele está, como um Chabert inglês, retornando das Cruzadas, cansado e desiludido com as matanças que ajudou a promover. Seu rei-cruzado Ricardo não passa dum açougueiro; quando o filme começa, este está sitiando um castelo cheio de mulheres e crianças que supostamente sonegam-lhe uma estátua de ouro. Robin recusa-se a chaciná-las; Ricardo manda prendê-lo e as chacina pessoalmente, para logo perceber, sem remorso, que seu tesouro era uma pedra. Um velho caolho na amurada atira-lhe, sem arco, uma flecha, e para sua própria surpresa, atinge o rei no pescoço. Foi o único a escapar do massacre. “Gostei do olho dele”, Ricardo justifica-se, antes de morrer, praguejando, por causa do ferimento. “Que será de você, alegre Robin”, diz, libertando seu prisioneiro, “agora que morri?”

João Pequeno, que no filme tem a mesma altura de Robin, pergunta para onde irão. “Para casa, John.” Na Inglaterra, os velhos companheiros de Robin, o menestrel Will Scarlet e o Frei Tuck, não estão em situação melhor. Com o embargo do odioso João-sem-Terra (que agora a tinha toda) ao Papado, eles sobrevivem roubando cavalos dos que se confessam com o frade. Robin surpreende-se ao saber que seus feitos heróicos percorrem o reino em forma de baladas. “Mas eu não fiz nada disso!” “Nós sabemos que não”, sorri Will Scarlet, dedilhando seu alaúde.

Mas a maior surpresa desse Odisseu medieval está por vir: sua Penélope casou-se... com Cristo. Madura e linda, Audrey Hepburn é Marian, abadessa de Kirkley, e está prestes a entregar-se prisioneira ao governo anticlerical. Robin insiste em salvá-la, ela não quer. Ele bate nela e a carrega como um fardo, em seu cavalo. Mais tarde ela diz que um dente seu ficou solto. Robin é um tolo, mas não a ponto de ignorá-lo. “Nunca quis magoar você, mas é só o que faço.” Como se recordasse de algo, ela o encara. “Você nunca escreveu.” E ele, algo atônito: “Eu não sei escrever”...

Robin gostou de bancar o herói. Vai salvar agora as outras freiras, gordas, aprisionadas em Nottingham. Ele e João roubam uma carroça e se disfarçam de mercadores. Ao xerife bastou olhar a carroça que se aproxima para saber que é seu patético oponente. “Dois cavalos puxando, e dois para empurrar? Quase lamento.” E quando um sentinela imbecil se dá o imenso trabalho de desatar o nó para fazer cair o portão e capturar Robin na óbvia armadilha, o enfastiado xerife diz: “Cut it, for Christ’ sake!” O modo como Robin e João escapam é o menos heróico possível. Eles são lentos, os guardas do xerife incompetentes. Muito sangue para pouca luta. O maravilhoso Robert Shaw é o xerife, homem cultivado, religioso, cavalheiresco. “Dois homens velhos, meu bom Deus!...”

Com algumas cicatrizes a mais, Robin volta a se interessar por Marian. “Nunca beijei uma freira; será pecado?” Continua tão bela, que não beijá-la é que seria. Mas ela tem suas próprias cicatrizes: os pulsos que cortou há vinte anos, antes de contrair os votos. “Rezei tanto, fiz penitências terríveis, mas só o tempo... eu não sonho mais com você, Robin.” E em seguida, com característica coerência feminina: “Houve muitas mulheres nas Cruzadas?” “Várias, sim... mas todas se pareciam com você.” Ela por fim se deixa abraçar. “Tenho me sentido tão pouco por tanto tempo...” Então, à beira do rio, iluminada pela deslumbrante fotografia de David Watkins, ela suplica: “Machuque-me... Faça-me chorar!” Eles se deitam em um trigal, desaparecendo no mar dourado, o ocaso de duas lendas.

Camponeses, iludidos pelas canções heróicas, procuram Robin para que ele os lidere contra o honesto, porém feudal, xerife. Robin também se ilude; talvez ele seja mais, afinal, do que um velho reumático. O interessante é que, no filme todo, ele mal dispara uma seta... O bandoleiro e o xerife concordam em travar um combate singular; rezam primeiro, lado a lado, usando as espadas como crucifixos. O respeito, quase afeto, de um pelo outro, é surpreendente. O xerife ordena aos seus homens que deixem os camponeses em paz, caso perca. No combate, revela-se melhor combatente, porém fisicamente mais débil que o brutamontes Connery. Ele fere Robin mortalmente, mas é morto por este. João e Marian levam Robin à abadia, enquanto os homens do xerife, indiferentes às ordens do seu finado comandante, massacram e aprisionam o efêmero bando de Sherwood.

Delirante, Robin festeja sua inútil vitória. “Você cuidará de mim até eu sarar”, diz a Marian, “e então... grandes batalhas! Nossa vida será tema de baladas!” Ela lhe dá uma beberagem, não sem antes beber um bom gole. Ele aprova o remédio, pois não sente dor. Nem dor, nem seus membros. “João! Socorro, fui envenenado!” Por um momento ela parece a própria morte, branca, alta, definhando. Desesperado, ele pergunta: “Por quê?!” A voz da freira soa como o vento entre os trigais: “Amo você... mais que à luz do Sol... mais que ao corpo, à alegria, ou mais um dia... mais que a Deus.” Não foi bem uma resposta. Teria sido para salvar-lhe a alma, para que não sofresse, para quê? Pouco importa. Robin se resigna. “Nós não teríamos mesmo outro dia assim, teríamos?” Mesmo em sua obtusidade camponesa, sabe que se algo nele vale a pena manter vivo, é a lenda. Por isso, quando João Pequeno, chorando como uma criança, o abraça, ele tira uma flecha da sua aljava e ajusta-a, trêmulo, ao famoso arco. “Onde cair, coloque-nos juntos... e deixe-nos lá...”

A seta dispara janela afora, e se perde no céu infinito, ao som da música de John Barry. Close em duas maçãs podres sobre o parapeito.

24.2.08

José Bonaparte

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Minha cena favorita de um filme que não me agradou, Goya's Ghosts, como já escrevi alguns posts atrás.

1808. O novo rei da Espanha, José Bonaparte, irmão de Napoleão, examina as obras de Bosch, Goya e Velásquez, na Galeria Real de Madri, decidindo quais mandará para o seu irmão imperador, em Paris.

Quem estiver a fim, pode baixar esse clipe aqui.

11.2.08

Jornalismo histórico ao invés de História

Num primeiro momento, 1808, de Laurentino Gomes, pareceria um D. João VI no Brasil for dummies, exceto pela abrangência da pesquisa realizada – ainda que exclusivamente de fontes secundárias – e pela pertinência das analogias entre o Brasil de hoje e o de duzentos anos atrás. O livro também se apóia demais em fontes extraídas da internet, o que é edificar sobre a areia, mas isso faz parte da nova tendência de escrever História neste país: a acessibilidade e a fluidez textual substituindo o rigor histórico e a elegância estilística. O estilo jornalístico já invadiu a literatura, agora se apodera da historiografia. Concordo que Oliveira Lima é meio chato de ler, mas que ensina a escrever, ensina. 1808 desperta o gosto pela História do Brasil, embora não pelo idioma do Brasil (assumindo que este ainda seja o português).

Não tenho pachorra para conferir a pletora de dados e números fornecidos na obra, mas confesso que minha fé na exatidão do autor foi levemente abalada por ele não ter, a julgar pela bibliografia, consultado uma fonte primária sequer – isto é, documentos originais, ao invés de outros livros que citam esses documentos – e também por ter errado feio ao parafrasear Chateaubriand, que definiu Napoleão como “o mais poderoso sopro de vida que já animou o barro humano”, e não como “o mais poderoso sopro de vida que já tinha passado pela face da Terra”, conforme citou Laurentino na página 44. Tampouco entendi o uso de “George III” ao invés de “Jorge III”, uma vez que a obra está, ao menos oficialmente, redigida em português. E o “benções” da página 146, juntamente com os muitos outros erros de ortografia e gramática ao longo das mais de 400 páginas, não me surpreenderam de todo, familiarizado que já estou com a péssima qualidade da Editora Planeta no que tange a revisão de texto e traduções.

Mas são bagatelas, admito, e essa pequena obra-prima do jornalismo histórico bem merece ser adotada por escolas de ensino médio do país.

7.2.08

A morte de Andy Warhol

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Cena do filme Basquiat (1996), de Julian Schnabel.

Se quiser, faça o download desse clipe aqui.

28.1.08

Ateísmo para crianças

Pior ainda que admitir um erro é dar razão a um fundamentalista.

Quando escrevi, em comentário anterior, que A Bússola de Ouro, do inglês Philip Pullman, não denigre igreja cristã alguma, eu estava enganado, e o zelote William Donohue, da Catholic League norte-americana, infelizmente, certo. Depois de ler as duas seqüências, A Faca Sutil, e A Luneta Âmbar, sou obrigado a concordar: a trilogia infanto-juvenil Fronteiras do Universo [His Dark Materials] é uma das obras mais anticristãs, anticlericais e anti-católicas já publicadas desde o último suspiro no Gólgota. Voltaire e Nietzsche são coroinhas se comparados ao ateu militante Pullman, cujo propósito declarado é inculcar ateísmo nos jovens desde a mais tenra idade.

Muito cativante e bem contada, a história pretende ser um épico de fantasia ao estilo Crônicas de Nárnia, porém com uma propaganda ateísta explícita, bastante diferente da mensagem cristã implícita de C. S. Lewis (ver a resenha do filme baseado em sua obra). Em Fronteiras do Universo não vemos elfos, gnomos, duendes e outras figuras da mitologia nórdica presentes em Harry Potter ou no Senhor dos Anéis, mas tão-somente figuras da mitologia judaico-cristã, como anjos, bruxas e demônios (estes últimos retratados de modo bem positivo, como simpáticos bichinhos falantes que acompanham cada humano). Deus, conforme explica o casal homossexual de anjos Balthamos e Baruch, nunca foi o Criador, e sim um mero anjo vigarista que enganou todo mundo fazendo-se passar por Todo-Poderoso. Noutras palavras, Deus não existe, a vida eterna não existe, e a religião cristã é uma perniciosa farsa com o propósito exclusivo de manter a humanidade imersa na ignorância e no obscurantismo.

Li com grande prazer a Bússola e a Faca, mas com certa impaciência e cansaço as 526 páginas da Luneta Âmbar, não pelo tamanho, mas pela carga excessivamente teológica e agressivamente anticristã do volume, capazes de agastar até um católico aposentado como eu. Também achei algumas coisas pouquíssimo convincentes, como as duas crianças, Lyra e Will, chegando (vivas) ao Reino dos Mortos, onde todos falam inglês, como elas. Esse, aliás, é um problema em todos os livros: até os ursos polares de A Bússola de Ouro, e as crianças da cidade latina imaginária Cittagàzze, de A Faca Sutil, falam perfeitamente o idioma do autor.

Fãs, inclusive, opinaram que a Luneta, embora premiada em 2001, passa dos limites ao retratar todos os padres como assassinos e castradores de crianças, e ao repisar, de modo quase obsessivo, seu catecismo agnóstico. É uma pena que um escritor de tão rica imaginação e tamanho talento narrativo nada tenha de mais profundo para ensinar às crianças além de “Esta vida é tudo que temos, portanto desfrutem-na ao máximo”, isto é, o ancestral e mais que obedecido à risca carpe diem. Sentido da vida por sentido da vida, prefiro o do Monty Python: “Tente ser legal com as pessoas, evite comer gordura, leia um bom livro de vez em quando, faça caminhadas, e procure conviver em paz e harmonia com pessoas de todos os credos e nacionalidades”.

Recomendo a leitura dessa fabulosa trilogia aos ateus adultos que apreciem fantasias e narrativas intrincadas, bem como às crianças e adolescentes que não estejam sendo educados pelos pais em alguma religião cristã.

15.1.08

Obrigado, fundamentalistas!

Sempre que um grupo fundamentalista se manifesta contra alguma obra de arte ou entretenimento, faço questão de conhecer essa obra, não importa o que os críticos digam a respeito dela. Via de regra, tais obras são muito boas; afinal, se os fundamentalistas as odeiam, é porque algo de bom elas devem ter. E, de fato, devo aos xiitas iranianos e neopentecostais, respectivamente, o prazer de ter conhecido Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, e os livros da série Harry Potter.

Desta vez, minha dívida é com os fundamentalistas católicos norte-americanos, que se mobilizaram para boicotar o belíssimo e encantador filme de fantasia A Bússola de Ouro, alegando que o romance em que se baseou, escrito pelo inglês Philip Pullman, é essencialmente anticlerical. Falam sobre uma “campanha insidiosa” para inculcar ateísmo às crianças e denegrir o cristianismo. O porta-voz dessa insanidade é um energúmeno chamado William Donohue, presidente de uma tal Catholic League, cujo logotipo não tem cruz alguma, mas tão-somente uma espada.

Em vista disso, não tive dúvidas: assisti ao filme, amei cada minuto de projeção, e comecei a ler o livro, tudo graças ao boicote desses fanáticos. Impressa ou projetada, A Bússola de Ouro, com sua simpática protagonista mirim, seus animais falantes, ursos polares de armadura e belas lições de coragem e amizade, não denigre igreja específica alguma. Em contrapartida, os prelados sinistros e intolerantes da organização intitulada Magisterium, vilões da premiada trilogia His Dark Materials de Pullman (traduzida aqui como Fronteiras do Universo), lembram muito o boçal Donohue e sua liga fascistóide.

Façam um favor às crianças de vocês e às crianças que há em vocês: assistam ao livro e leiam o filme A Bússola de Ouro.