1.3.12

Caricatura traçada com sangue

Meu prefácio para o livro Hitler - Retrato de uma tirania, de Fernando Jorge.



Em 1963, na rua São Bento, em São Paulo, o então jovem escritor Fernando Jorge encontrou um amigo, o também escritor e político Israel Dias Novaes, diretor do Banespa e do jornal Correio Paulistano.



Os dois foram juntos a um café de esquina, onde Israel, conhecedor da predileção de Fernando por História, recomendou-lhe certo livro que lera recentemente. Tratava-se de uma biografia de Adolf Hitler, recém-publicada no Brasil, escrita por um autor alemão chamado Herman Zumerman (não Hermann Zummerman, na grafia alemã correta). O título dessa obra era Hitler – Anatomia de uma tirania, e na nota do editor dizia o seguinte:

O crítico Alfred Belsen escreveu, a propósito deste livro: “Zumerman é, indiscutivelmente, um grande escritor. Seu estilo é excelente, muito agradável, saboroso. Consegue prender a atenção do leitor do começo ao fim. Hitler – Anatomia de uma tirania pode ser considerado, com justiça, o maior livro que apareceu, nestes últimos tempos, sobre o homem monstruoso que desencadeou, no mundo, a Segunda Grande Guerra”.


Animado, Novaes elogiou o livro, por sua clareza de estilo e abrangência da pesquisa realizada, mas sobretudo pela tradução ímpar, creditada a um certo Raul Rodrigues.


Ao ouvir isso, Fernando Jorge caiu na gargalhada, e, diante da perplexidade do amigo, soltou esta bomba:


— Herman Zumerman sou eu!


O livro, na verdade, fora escrito em português pelo próprio Fernando, e publicado sob pseudônimo, por imposição de seu editor, o judeu búlgaro Eli Behar. Na realidade editorial brasileira de então, autores estrangeiros vendiam mais que os nacionais, de modo que Herman Zumerman, o crítico Alfred Belsen e o tradutor Raul Rodrigues haviam sido todos inventados por Behar, numa época sem internet, em que tais imposturas passavam facilmente por verdades.


O próprio Fernando Jorge conta, a respeito disso:


“Eu não queria de modo algum publicar o livro com outro nome que não o meu, mas o editor me fez uma proposta boa demais, e como eu ganhava muito pouco na Assembleia, havia acabado de me casar e precisava desesperadamente do dinheiro, acabei aceitando.”


Esta é a nova edição corrigida e atualizada — inclusive no subtítulo — de uma das primeiras biografias de Hitler escritas por brasileiro. A raridade dela é ainda maior pelo fato de que escrever sobre a vida de alguém, falar dos seus pais, sua infância e vicissitudes, é humanizar esse alguém, e na década de 60 o Führer não era considerado um homem, e sim a encarnação do mal.


A distância do pós-guerra, bem como novos estudos históricos conduzidos com mais critério que emoção, têm possibilitado uma compreensão melhor da pessoa do líder austríaco, despojando-o do elemento sobrenatural e julgando-o no contexto de seu próprio tempo. O que em nada altera o fato de ele ter sido um monstro. Não o diabo, apenas um homem, sim, embora o pior de todos que já comandaram uma superpotência.


Poucos personagens históricos são tão indefensáveis quanto o Führer do Terceiro Reich. Com uma mistura de maquiavelismo político, monomania e falta de escrúpulos, ele seduziu uma nação, apelando aos seus instintos mais primitivos e mesquinhos, precipitou o maior conflito armado de todos os tempos e causou milhões e milhões de mortes. Nenhum outro indivíduo foi diretamente responsável por tanta destruição, a tal ponto que, para chamar um personagem público de ogro autoritário e/ou criminoso, basta pintar-lhe um bigodinho de Hitler numa foto. Nenhum outro ditador se enquadra tão bem nas características principais do psicopata, segundo o Ato de Saúde Mental do Reino Unido de 1983:


A) Incapacidade de estabelecer relacionamentos afetivos (Hitler amou somente a sua mãe e a sua cadela, à qual fez a suprema caridade de envenenar quando se suicidou).


B) Propensão a ações altamente impulsivas e irracionais (a marca registrada da trajetória política dele, cujo sucesso inicial se deveu a uma capacidade suprema de manipulação mesclada a uma ideologia antissemita sem qualquer base factual).


C) Falta de sentimento de culpa ou de responsabilidade pelas próprias ações.


D) Incapacidade de aprender de experiências adversas.


Entretanto, para quem ignora quem ele foi e todo o mal que causou, Hitler parece apenas ridículo, com seu bigode quadrado, topete pré-emo e gestual furibundo. Seus contemporâneos, antes que ele chegasse ao poder, achavam-no esquisito e algo excêntrico, mas inofensivo. O genial Charlie Chaplin foi um dos primeiros a explorar a qualidade truanesca da pessoa do Führer, ao retratá-lo na melhor sátira política da história do cinema, O grande ditador, de 1940.




De fato, quase todos os ditadores são caricaturas vivas. Não só Hitler parecia um Carlitos mal-humorado, como seus amigos Stalin, Mussolini e Franco eram nanicos; o Duce, em particular, não passava de um tampinha cabeçudo, de uniforme extravagante e metido a machão. A verdade é que, precisamente por serem caricatos e caricaturáveis, esses homens perseguiram tão avidamente o poder, como forma de superar seus monumentais complexos de inferioridade. Porque maçantes, não foram considerados perigosos, e isso possibilitou que se tornassem caricaturas desenhadas com sangue, em virtude do poder mortífero que vieram a abocanhar.


Finda a guerra, com a extensão dos crimes nazistas revelada e as imagens aterradoras do Holocausto divulgadas, o chocado público parou de rir do topete do Führer e, pulando para o outro extremo, fez dele um bicho-papão. Aos sobreviventes dos campos de extermínio não bastava mais o escárnio, era necessária a execração aos assassinos. Assim, o líder nazista tornou-se tabu, uma figura tão nefasta, que quanto menos se falasse dele, melhor. Relativamente pouco se escreveu sobre a sua vida — à exceção de Hitler: a study in tyranny, do inglês Alan Bullock, publicado em 1952 — pois, como eu já disse, biografar é humanizar, e ninguém queria saber de um Hitler humano. Traumatizada pelo delírio nazista que a destruiu, a Alemanha só gerou a sua primeira grande biografia do Führer, escrita por Joachim Fest, em 1973, dez anos depois desta de Herman Zumerman, aliás, Fernando Jorge.


Talvez a obra cinematográfica mais típica desse processo de satanização seja o filme baseado num romance de terror, Os meninos do Brasil, em que a mera existência de clones infanto-juvenis do Führer constitui uma futura ameaça ao planeta. Não por acaso, o autor desse livro foi o judeu nova-iorquino Ira Levin, competente criador de diabos, dentre os quais o mais notório (e assustador) foi O bebê de Rosemary.


Caricatura de David Levine
Uma tentativa corajosa e impagável de ridicularizar essa demonização de Hitler, reconduzindo-o à sua condição caricatural, foi o filme de 68 (depois adaptado como musical) Primavera para Hitler, onde o cineasta Mel Brooks, embora judeu, o retrata como uma simpática bicha louca de uma peça propositalmente destinada a chocar a Jew York do pós-guerra, mas que, contra todos os prognósticos, se torna um retumbante sucesso.


Esses filmes foram, no entanto, exceções à regra: controlada por judeus, Hollywood basicamente ignora Hitler até hoje. Nas décadas de 70-80, o Führer foi protagonista de algumas produções europeias de baixo orçamento, ainda que com atores da estatura de Alec Guinness e Anthony Hopkins. O telefilme inglês de 2003, Hitler – A ascensão do mal, repisa a imagem do tirano em seus primórdios como um jovem monstro desprovido de qualquer humanidade.


No ano seguinte, porém, o excelente filme alemão Der Untergang, sobre as últimas horas do Führer, chocou milhares de espectadores ao caracterizá-lo não como o energúmeno que vemos nos documentários, vociferando feito um possesso em um microfone, e sim como um homem frágil, precocemente envelhecido e com avançado mal de Parkinson, que dispensa pequenas gentilezas às secretárias e agradece à cozinheira pela última refeição. Se para os parentes dos mortos em Auschwitz e Dachau o Hitler Carlitos havia perdido a graça, o Hitler que diz “obrigado” era intolerável. Mesmo pessoas sem cicatrizes da monstruosidade nazista, mas conhecedoras de sua extensão, reagiam de forma muito passional a qualquer tinta menos negra no retrato do genocida-mor do Ocidente. É como se temessem o menor grau de identificação com tão assombroso personagem. A ilação inconsciente que se faz nesse caso é: “Se ele era humano como eu, eu posso ser um monstro como ele”.


Não há utilidade alguma em reduzir Hitler a um bigodinho tolo, muito menos em elevá-lo a Príncipe das Trevas. É importante preservar a dimensão humana do Führer para não nos esquecermos que ele não foi um fenômeno isolado e que, portanto, pode muito bem ressurgir em qualquer lugar, a qualquer momento, na pessoa de qualquer ditador ressentido e carismático. Se a trajetória do líder nazista nos serve de algo, é para nos alertar contra líderes políticos e religiosos contemporâneos de viés populista, considerados inofensivos precisamente pelo elemento algo burlesco, bonachão ou até cômico em suas personalidades, na sua aparência ou modo de falar, mas que, uma vez dotados de poder, seja por meio de eleições, roubo ou golpe de estado, não hesitarão em tirar o chapéu-coco e envergar a suástica.


Conhecer a história de Hitler e do nazismo nos dota de um termômetro para auferir a temperatura antidemocrática dos nossos próprios governos. Acaso temos políticos afeitos ao personalismo? Que violam sistematicamente promessas de campanha, ou que, por mais democráticos que se autodefinam, entregam-se a arroubos autoritários, exasperam-se com críticas e procuram a todo custo calar a imprensa, o TCU e outros órgãos vigilantes do regime democrático? Que são amigos de ditadores? Que gritam e gesticulam demais em comícios, a fim de usar o povo ignorante como massa de manobra? Se a resposta for afirmativa para alguma dessas perguntas, não estamos muito mais seguros que a República de Weimar, e todo cuidado é pouco.


29.1.12

Sublime anonimato

A discussão sobre quem escreveu as peças teatrais e poemas atribuídos a William Shakespeare começou logo após a morte deste e já dura 400 anos. Numerosas, ainda que circunstanciais, as evidências contra a autoria do ator inglês vão da inexistência de manuscritos seus ao fato de ele não ser letrado o bastante para gerar tão erudita obra. Candidatos à identidade posta em dúvida variam do filósofo Francis Bacon ao dramaturgo Christopher “Kit” Marlowe.


Não é difícil imaginar o escândalo que tais teorias provocam no empoeirado establishment acadêmico, na rentável indústria do turismo em Stratford-upon-Avon, cidade natal de Shakespeare, ou simplesmente nos acostumados ao ícone semicalvo de enorme colarinho. Os ingleses, de um modo geral, não se incomodam que o autor verdadeiro seja outro John Bull; inadmissível seria que não fosse inglês.



A mim essa polêmica interessa apenas como arte, e em tal capacidade Anônimo, o primeiro filme a botar a colher na briga, é arte da boa. Com a fortuna que ganhou fazendo cinema catástrofe para Hollywood, o diretor alemão Roland Emmerich nos deu em Anônimo a sua melhor película. Nela, os recursos técnicos usados para explodir a Casa Branca, congelar Nova Iorque, ressuscitar Godzila e destruir o mundo, serviram para reconstituir a Londres elisabetana com toda beleza e fidelidade possíveis. Embora financiado por dólares, o filme traz apenas britânicos no elenco, garantindo a impecabilidade da pronúncia e da interpretação.



Anônimo advoga a famosa tese de que Edward de Vere, conde de Oxford, escreveu os mais soberbos monumentos da literatura inglesa, encenando-os no anonimato porque não ficava bem um nobre se dedicar a atividades tão vis como teatro. Will Shakespeare, em contrapartida, é um rufião iletrado que não só se faz passar por autor dessas obras-primas, como ainda extorque dinheiro do conde em troca de não lhe revelar o segredo. Afinal, o patético Polônio, apunhalado em Hamlet, não passa de uma caricatura do puritano William Cecil, conselheiro da rainha, o que poderia custar a de Vere uma temporada na sinistra Torre de Londres. Mercenário, Will chega a assassinar Kit Marlowe, que estava prestes a descobrir a verdade sobre a impostura. O artista puro e incorruptível encontra sua voz no teatrólogo Ben Johnson, autor de Volpone, que inicia o filme arriscando a vida para proteger os originais da obra de de Vere das garras do arquivilão corcunda Robert Cecil, filho de William e inspirador do grotesco personagem Ricardo III.




Anônimo trata a monarquia britânica com a irreverência que ela merece e que nenhum cineasta inglês parece ter, a julgar pelas recentes baboseiras patrióticas A rainha e O discurso do rei. Creio ser esse o filme que mais justiça fez à algo enigmática Elisabete I, a Rainha Virgem (“ela é tão virgem quanto eu sou católico”, comentou o huguenote Henrique IV). Bem distante da heroína celibatária das estúpidas hagiografias protagonizadas por Cate Blanchett, e da onisciente deus ex machina de Judi Dench em Shakespeare apaixonado, a Elisabete de Emmerich — regiamente interpretada por Vanessa Redgrave na velhice, e na juventude pela filha de Vanessa, Joely Richardson — é uma mulher de carne e osso, amante da vida, do teatro e dos amantes que o seu poder atrai, embora não tanto dos bastardos que tem com eles.






Curiosamente, embora reduza Shakespeare a um impostor, chantagista e homicida, o filme é um hino de amor ao teatro shakespeariano, assim como o romance Borges gibt es nicht, de Gerhard Köpf (outro alemão), é uma das maiores homenagens já prestadas ao genial Jorge Luis Borges, apesar de este ser, no livro, um reles ator a serviço do argentino Bioy Casares, verdadeiro criador da obra inigualável que o mundo inteiro atribui a Borges.




A despeito das declarações bombásticas do cineasta sobre o Cisne de Avon ser uma fraude, e cujo objetivo não é outro senão vender o seu peixe, a mensagem sutil de Anônimo é o postulado de Oscar Wilde: “revelar a arte e ocultar o artista é o objetivo da arte”. Ou seja, não importa quem criou a obra shakespeariana (que inclusive pode ter mais de um autor, como a de Homero); o que importa é conhecê-la. Somos muito personalistas, e o personalismo é nefasto, pois origina aberrações como religiões, cultos a políticos populistas, partidarismos e sectarismos. A própria Bíblia, embora escrita por dezenas de autores desconhecidos, foi o best-seller do Ocidente durante séculos só porque o atribuíram a um único autor: Deus.




É inevitável comparar essa fita com a outra que mais explorou a persona do dramaturgo inglês. Filme leve para ser assistido com a família — e por essa razão, mais que por suas qualidades, premiado com sete Oscars —, Shakespeare apaixonado, de John Madden, seria como uma das próprias comédias shakespearianas, ao passo que Anônimo equivaleria a uma das tragédias, nas quais o Bardo atingiu a maturidade poética. Uma coincidência irônica é que Kit Marlowe, no filme de Madden, também acaba morto por Will, embora por acidente, ou ao menos é o que este pensa.




No prólogo de Anônimo, o grande ator Derek Jacobi — que fez o mesmo papel de coro no excelente Henrique V de Kenneth Branagh — oferece ao espectador uma história diferente, “mais sombria” que a tradicional, “sobre um palco conquistado e um trono perdido”. Esse trono perdido é a surpresa final do filme.



Anônimo não ganhará tantos Oscars quanto Shakespeare apaixonado, porque uma comediazinha romântica terá sempre mais audiência que o mais sublime drama. Quer se goste do filme de Emmerich ou não, ele tem o mérito inegável, já na sua concepção, de despertar curiosidade sobre as peças e poemas que menciona — Hamlet, Henrique V, Sonho de uma noite de verão, Como gostais, Macbeth, Ricardo III, Vênis e Adônis, etc. — nas pessoas que não os conhecem, lançando talvez a semente para uma nova geração de admiradores da obra shakespeariana (ou “deveriana”). Da obra, e não do homem, quem quer que este tenha sido.

5.12.11

O tirano que amamos odiar



16.10.11

Mais uma do professor Leodegário



Um cineasta de visão








1.4.11

Titília e o Demonão

PREFÁCIO

Apenas a maior descoberta de documentos da História do Brasil


No segundo semestre de 2010, por um desses acasos que só podem ser explicados como intervenção divina — sendo a divindade em questão Clio, a musa da História —, nada menos que 94 cartas do imperador Pedro I à sua célebre amante, a marquesa de Santos, escritas entre 1823 e 1827, posteriormente desaparecidas e esquecidas, foram achadas quase por acidente, em um obscuro museu norte-americano, por um pesquisador brasileiro com alma de detetive, faro de sabujo e paciência de Jó.

(A propósito, quantos tesouros brasileiros jazem sepultos não em sítios arqueológicos, mas em coleções, arquivos e bibliotecas, assolados não por ladrões de sarcófagos, maldições e tempestades de areia, e sim por traças, negligência e umidade? Oxalá que a descoberta do Paulo Rezzutti estimule outros pesquisadores a partir em busca desses tutancâmons de papel.)

Se existem mulheres ocasionalmente elevadas à categoria de “namorada do Brasil”, só uma pode ser chamada de “amante do Brasil”: Domitila de Castro Canto e Melo, a jovem divorciada cujo tórrido affair com dom Pedro I constitui o maior romance da nossa história. Todos os países gostam de ter o seu no imaginário nacional, mas a correspondência do imperador brasileiro com a sua amásia paulista contém um elemento pícaro e erótico que chocaria Abelardo e Heloísa e deixaria ruborizados quaisquer casais anteriores a John Lennon e Yoko Ono. Napoleão, quando muito, mencionava a “florestinha negra” de Josefina em carta para a própria; dom Pedro fala da “tua coisa”, referindo-se ao próprio pênis, e das vicissitudes sofridas por este (carta 70). Em outra ocasião (carta 24) diz que naquela noite irá “aos cofres” de Domitila, eufemismo para aquilo mesmo.

Talvez o mais divertido destas missivas sejam os insistentes protestos de fidelidade do mulherengo coroado, tentando acalmar as crises de ciúme da amante, sobretudo por sabermos que ele teve outras mulheres durante seu caso com Domitila, inclusive a própria irmã desta!


Eu já não namoro a ninguém depois que lhe dei minha palavra de honra, e assim não lhe mereço teus ataques (carta 50).


Mas os ciúmes dele por Domitila não são menos intensos, a ponto de o Libertador reclamar do número de carruagens na casa da marquesa, que lhe parece suspeito (carta 61). De outra feita, o monstro de olhos verdes deve tê-lo transtornado a tal ponto, que ele precisou fazer mea culpa depois de cometer algum desatino:


Eu conheço o mal que ontem fiz, e como honrado, e seu verdadeiro amigo, lhe peço perdão. Se o amor que temos um ao outro é verdadeiro, devemos perdoar suspeitas mal fundadas ou, por outra, ciúmes vagos sem fundamento (carta 38).


Esses transbordamentos passionais não deixam de ser temperados com lirismo:


Ontem mesmo fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção (carta 9).


Difícil não sorrir ante as queixas dele por Domitila, mal-humorada, não o chamar conforme o tratamento carinhoso da época:


Minha boa senhora: não posso entender a razão de me não responder chamando-me de filho como eu chamo a Va. Ea. e espero que Va. Ea., mitigando alguma coisa seu gênio hoje irritado sem razão, me responda pondo no frontispício da carta Filho... (carta 64)


Quase todas as cartas são assinadas pelo “fiel, desvelado, constante e agradecido amante”, mas o vocativo e a assinatura variam conforme a temperatura da paixão. Quando esta se encontra no auge, ela é “Titília” e “Meu amor”, ele é “O Demonão” ou “Fogo Foguinho”; à medida que vai esfriando, ele passa a ser “O Imperador” e “Pedro”, enquanto ela se torna “Filha” e “Querida Marquesa”.

As epístolas desta edição em sua maioria não vieram datadas, mas o profundo conhecimento histórico do Paulo Rezzutti supre esta falta. “As formas como d. Pedro chama sua amante e como ele assina, somadas a fatos históricos e situações familiares conhecidas mencionadas nas cartas, permitiram, na maioria das vezes, identificar o ano e até a quinzena do mês em que foram escritas.” Além das 94 cartas que ele descobriu na Hispanic Society of America, em Nova Iorque, outras 17 valorizam o final deste volume em forma de anexos, algumas inéditas, outras não, todas transcritas diretamente dos originais, corrigindo inexatidões anteriores.

Entre esses anexos estão algumas das poucas cartas de Domitila a d. Pedro de que temos notícia. O Rei-Soldado destruía várias delas, se não todas, por precaução, pedindo à amante que fizesse o mesmo com as dele (ver o comentário da carta 75). Para felicidade nossa, Domitila não obedeceu ao amante imperial, e graças a essa desobediência temos praticamente todas as cartas que o “Demonão” escreveu para a “Titília”.


Constatar a profunda humanidade do imperador do Brasil é o maior deleite que a leitura de suas cartas à amante proporciona. Muitas são tão prosaicas que poderiam ter sido escritas por qualquer plebeu à sua pequena. Por diversas vezes o soberano pergunta simplesmente como ela tem passado, ora anuncia que irá vê-la à noite, ou que está lhe mandando, junto com a missiva, frutas, flores, goiabada ou “bolos de cutia” (carta 26). Também comenta o tempo todo, pai carinhoso que é, sobre a saúde dos filhos, tanto os legítimos quanto os bastardos.


Desse estilo nada protocolar, totalmente informal e gramaticalmente deficiente do monarca, jorra um manancial de fatos históricos (devidamente identificados e esclarecidos nos comentários), além de descortinar, por meio dos detalhes comezinhos, um rico painel da vida cotidiana e dos costumes do Brasil durante o Primeiro Reinado.

Na Europa as amantes, sobretudo na França, eram quase uma instituição monárquica, visto que reis se casavam por razões de Estado e nunca com quem queriam. Para limitar-nos à monarquia portuguesa, Pedro I de Portugal teve por amásia Inês de Castro — em cuja árvore os genealogistas a soldo do imperador brasileiro quiseram a todo custo enxertar Domitila — e dom José I, bisavô do nosso dom Pedro, frequentava a marquesa de Távora. Discrição, no entanto, era uma condição sine qua non para a existência dessa instituição equívoca, e as hipocrisias, mesmo institucionais, são mais difíceis de ocultar sob a claridade intensa dos trópicos. Para piorar, dom Pedro não era homem dado à discrição, nem tampouco Domitila. Não contente em trazê-la para a corte no Rio de Janeiro e torná-la dama camarista da imperatriz Leopoldina — uma austríaca bondosa, culta e pouco sensual —, ainda fez criar seus filhos com Domitila ao lado dos meios-irmãos legítimos.

Inicialmente d. Leopoldina parece ter feito vista grossa a essa ligação adulterina. O diplomata austríaco Mareschal achou mesmo que a extrema condescendência da consorte imperial, interpretada pelo marido como indiferença, havia provocado a escâncara do romance. O fato é que a coisa se tornou tão ostensiva, que ela não mais pôde fingir ignorar o óbvio, e quando faleceu logo depois, aos 29 anos, não poucos acusaram os dois adúlteros, mas sobretudo a marquesa, “esse monstro de perfídia e iniquidade”, de haver assassinado a gentil imperatriz (ver anexo 12).


Após a proclamação da República, em 1889, o escândalo dessa aventura extraconjugal foi devidamente afiado com distorções para ser usado à guisa de baioneta pelos republicanos na guerra de propaganda contra a monarquia deposta. Pelos arroubos eróticos na sua correspondência privada, dom Pedro I foi rebaixado de imperador a sátiro e entronizado num penico. A marquesa de Santos, já demonizada em vida por não se conformar à sina das mulheres do seu tempo — a saber, a de meros apêndices dos maridos, por piores que fossem —, foi acusada de atuar nos bastidores do poder imperial como uma espécie de madame Pompadour tupiniquim, provocando a queda do ministro José Bonifácio e a dissolução da Assembleia Constituinte, ambas em 1823, e até mesmo a abdicação de dom Pedro, a 7 de abril de 1831!

Esses exageros, simplificações e calúnias têm sido repisadas ao longo do século XX, geralmente por historiadores menos interessados em informar do que em entreter os leitores com detalhes pitorescos e até escatológicos — como a repetição, ad nauseam, de que dom Pedro estava acometido por diarreia ao proclamar a Independência na colina do Ipiranga —, ou por professores de História do Brasil de [de]formação marxista, obstinados em enxovalhar todos os vultos históricos não identificados por eles com “o povo”, essa entidade que tanto idealizam.


É por causa de tais deturpações, causadas por ideologia ou simplesmente pela ignorância ou despreparo, que os amantes da veracidade histórica precisam dar graças a Clio por ter confiado essas 94 cartas inéditas à seriedade, à erudição sólida e aos escrúpulos do Paulo Rezzutti. Não só a transcrição que ele faz das missivas é impecável, como também o são os comentários com que as explica e lhes dá contexto, proporcionando ao leitor uma aula enriquecedora e muitíssimo agradável sobre um dos períodos — e sobre alguns dos personagens — mais fascinantes da nossa História, sem concessões aos que apenas desejam vê-la como registro de fofocas, gracinhas e boatos, nem tampouco à rigidez de um academicismo enfadonho.

As fontes de pesquisa do Paulo são as bibliotecas, os arquivos públicos, os documentos originais, as fontes primárias em suma, deixando as fontes secundárias (livros tardios sobre o tema) na posição que é delas, secundária, ao contrário de certa corrente de autores que tratam a História do Brasil como fast food, via de regra jornalistas sem tempo ou paciência para consultar fontes primárias, e que por causa disso produzem jornalismo histórico ao invés de História.

Mais que qualquer coletânea de cartas de dom Pedro publicadas antes, a da presente edição derruba certos mitos, como o já mencionado de que a marquesa manipulava o soberano. Ora, ele próprio desmente tal visão, desculpando-se por não poder atender ao pedido da amante de nomear certo amigo dela para algum cargo no Exército (carta 29).

Este livro traz outras contribuições importantes ao estudo do Primeiro Reinado, como a suspeita bem fundada de que a última carta de dona Leopoldina, em que a imperatriz agonizante acusa Pedro e Domitila de haverem causado a sua morte, é muito provavelmente uma fabricação dos inimigos do primeiro imperador.

Doravante nenhum estudo abrangente sobre o Libertador do Brasil poderá prescindir do exame destas cartas inéditas, escritas sob o calor das mais humanas emoções, o amor e a paixão, por um dos mais humanos vultos da nossa História.

30.3.11

Apologia aos nerds

Não dá para entender o que tanta gente viu na Rede social, de David Fincher. Três Oscars e 8 indicações! Fala sério! Por um filme escuro, com uma trilha sonora chatinha — oscarizada! —, sobre um punhado de universitários que falam e digitam como metralhadoras coisas incompreensíveis para quem não pertence à tribo nerd! Oscar de roteiro adaptado? Mas se a história é igual à do telefilminho de 1999 Pirates of Silicon Valley, que trata do início da carreira de Steve Jobs e Bill Gates, os funerdadores da Apple e da Microsoft, contribuições, aliás, bem mais relevantes que o Facebook, retratado no filme de Fincher como uma nova imprensa e o pirralho Zuckerberg como um novo Gutenberg. O enredo é o mesmo: adolescentes começam a trabalhar juntos, ganham dinheiro, então o mais nerd e inescrupuloso de todos — mostrado como gênio — passa a perna nos demais, que o processam em milhões de dólares, e todos ficam bilionários no final. Bons tempos aqueles em que genialidade era criar ou inventar algo extraordinário, e não fazer um bilhão aos 19 anos..

Li que o Fincher vai dirigir a versão norte-americana do best-seller sueco Os homens que odiavam as mulheres (essa é a tradução correta, não a da Cia das Letras), de Stieg Larsson. Já de cara achei o elenco hollywoodianamente artificial: a soturna hacker Lisbeth Salander vai ser interpretada por uma bonitinha qualquer chamada Rooney Mara — que provavelmente está dando para o Fincher —, e o jornalista barrigudo Blomkvist vai ser o 007 Daniel Bombado Craig. Típico. Ruben Blades, ator latino, disse que se Hollywood fizesse um filme sobre Bolívar, colocaria um par de costeletas no Schwarzenegger. Eles nunca aprendem.

17.3.11

Lançamento do livro "Titília e o Demonão"

Ao longo de quase dois séculos, ficaram escondidas dos olhos do mundo 94 cartas íntimas do imperador dom Pedro I para a célebre marquesa de Santos, com quem manteve um turbulento caso de amor que constituiu o mais ruidoso escândalo da sua época e o maior romance da nossa história. Agora, transcritos e comentados com erudição ímpar, esses documentos profundamente humanos e de incomparável valor histórico nos mostram um jovem monarca impetuoso e apaixonado, dono de aguçado senso de humor, que escreve coisas libidinosas à amante, tenta acalmar as crises de ciúme dela ao mesmo tempo em que esbraveja, movido pelo mesmo estado emocional, mas também revelam um homem atencioso para com a mulher amada, os desabafos dele, sua preocupação com os problemas brasileiros, seu interesse e carinho pelos filhos, permitindo-nos conhecer de fato a personalidade do líder que promoveu a nossa Independência, ao mesmo tempo em que descortinam, por meio de detalhes prosaicos, um rico painel da vida cotidiana e dos costumes do Brasil durante o Primeiro Reinado.

31.12.10

Glauco Rocha


20.12.10

Professor Leodegário


















24.11.10

O Brasil reduzido a Ilha de Caras

Por Nilson Gomes, publicado originalmente na Revista Bula

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Laurentino Gomes populariza personagens vitais para o País, mas para aproximar o povo de seus heróis, não precisava abusar da escatologia, como se fosse um Ratinho fazendo reportagens no programa do Datena
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O jornalista Laurentino Gomes lança mais um livro, 1822, que certamente vai encher as burras da Editora Nova Fronteira e encher de informações inúteis os burros de todas as fronteiras. São 352 páginas que, a pretexto de detalhar a Independência do Brasil, seus personagens e ações, começa e termina com escatologia: D. Pedro soltou o Grito do Ipiranga em meio a uma crise de diarreia e não muito depois era obrigado a voltar para a Europa carregando pouco mais que penicos. A obra (45 reais nas livrarias, 36 via internet) segue o êxito de tiragens de 1808, acerca da vinda da família real portuguesa para o Brasil, e antecede 1889, que certamente o autor já está preparando sobre a Proclamação da República. Com a ideia de seduzir o comprador do livro, supostamente um jovem sem o hábito da leitura, o autor abusa dos detalhes que considera engraçados, como se o Brasil tivesse se tornado um país por uma série de historietas folclóricas, um saci bípede de 8 milhões de quilômetros quadrados. A “descoberta portuguesa”, inicialmente chamada de Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz, é tida no livro como uma imensa Ilha de Caras. Caras-de-pau. Pau-brasil, logicamente.
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Ex-editor e repórter de O Estado de S. Paulo e Veja, em 1822 Gomes é um Ratinho trabalhando para o programa do Datena, enviado especial ao passado. Valoriza sobremaneira o disse-que-disse, às vezes ancorado em outro disse-que-disse —uma informação não se torna verdadeira apenas por ser antiga ou pela ausência de quem a desminta, pois o caso dos historiadores é diferente das ciências jurídicas: em dúvida, pró-lixo. Em geral, Gomes tem fonte até demais, justifica em excesso. A rigor, tem-se um ajuntamento de livros, uma coletânea, e quase nada de descoberta do próprio autor. Dá crédito a quase 200 autores/obras, praticamente um a cada folha do livro, com média de quase duas citações por página de texto.
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O principal defeito é o enfoque no prosaico. Para Gomes, D. Pedro foi beneficiado pelo acaso, envolto numa bolha de sorte que o acompanhou sempre. Mérito, mesmo, nenhum além de estar na hora certa, no lugar certo para entrar na vida e sair nos livros de História. O desligamento de Portugal? Nada a ver com Pedro, mas com a mulher, hoje mais conhecida nos desfiles de Carnaval, madrinha de bateria da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Escreve Gomes na página 136: “Do ponto de vista formal, a Independência foi feita por Leopoldina e Bonifácio, cabendo ao príncipe apenas o papel teatral de proclamá-la na colina do Ipiranga”. E o reconhecimento internacional à liberdade do Brasil? Também nada a ver com Pedro: “Leopoldina se empenhou a fundo no reconhecimento da autonomia do novo país pelas cortes europeias, escrevendo cartas ao pai, imperador da Áustria, e ao sogro, rei de Portugal”. Para manter o nível do raciocínio de Gomes, um esclarecimento: o Bonifácio citado acima é José Bonifácio de Andrada e Silva, o Boni, ex-diretor da Globo e pai do Boninho, aquele do BBB, que agora tem até deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro.
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O subtítulo do livro é “Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil — um país que tinha tudo para dar errado”. Completa na última capa: “E, no entanto, deu certo...”. Refere-se a Bonifácio, Leopoldina e Lord Cochrane. Essa de “criar o Brasil” é a mesma tese esposada no livro anterior, 1808, quando o pai de Pedro, João, teria desempenhado semelhante papel. A conferir se no próximo tomo o Brasil será fundado novamente, talvez por Pedro II. A manter o ritmo de datas importantes, haverá um 2002: o atual governo já demonstrou por a+b o equívoco de Gomes ao atribuir importância, ainda que pequena, a Pedro e João, pois sabe-se que quem fundou o Brasil na verdade foi o presidente Luís, inventor da pólvora, da roda, da imprensa, da penicilina e do Viagra, além de cantor, ator e jogador de futebol.
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Mas a tara por celebridade e coincidências não invalida a obra. É bem escrita, sem a chatice do academicismo, para ser saboreada em dez horas de leitura. Tenta conquistar os avessos a livro com vocabulário comum, títulos chamativos, capítulos curtinhos e ilustrações, muitas ilustrações, três cadernos de ilustrações. Nelas, Gomes prova que o quadro O grito do Ipiranga, na qual Pedro Américo “retrata” o instante da Independência, não apenas é uma fraude à história, é plágio de Napoleão em Friedland, do francês Jean-Louis Ernest Meissonier. No mais, figuras que a moçada está careca de ver nas apostilas escolares. 1808 e 1822 foi feita para ela.
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Gomes segue a picada aberta por tipos do gênero de Eduardo Bueno, o Peninha, autor de livros de História com a mesma leveza e profundidade encontradas na biografia da banda “Mamonas Assassinas”, de sua lavra. Nesse diapasão, Peninha e Gomes estão mais para O Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte, que para ser estudados em sala de aula — pretensão clara dos dois primeiros. Peninha, simpaticíssimo na TV (talvez até fora dela), está agora no canal History, que traduzido literalmente poderia significar algo decente entre as atrações televisivas. Não é. History é um aterro sanitário que abriga desde documentários bem feitos até previsões do gênero medium Mary Alves, uma revista Planeta em vídeo. O nível de Gomes é bem mais alto que os dos demais deste parágrafo. Espera-se mais dele, porém não rasteja na lama de History.
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Os depoimentos publicados na orelha sobre 1808 podem ser aplicados a 1822, descontados os exageros. Uma estudante de Porto Alegre, Patricia Morini, exulta: “Depois de ler este livro, finalmente consegui entender o Brasil”. Difícil, então, é entender a gaúcha. Stefano Tiozzo, professor na Universidade de Padova, na Itália, diz que se trata de “um dos melhores livros de História” que já leu. Ou seja, não é apenas no Brasil que professor lê pouco ou só lê besteira. É mais fácil concordar com a opinião de outra professora de faculdade estrangeira, Mônica Rector, Ph.D da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos: “Uma forma leve e divertida de estudar História sem sofrimento”. Os alunos de Carolina do Maranhão assinariam embaixo. No Brasil, estudar qualquer coisa, História inclusive, é encarado como sofrimento, uma sentença violadora dos direitos fundamentais que a pessoa tem de ser anta.
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Os fazedores de asno
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Laurentino Gomes dedica o livro “para todos os professores de história do Brasil, no seu trabalho anônimo de explicar as raízes de um país sem memória”. Conhece pouco a classe ou se refere a outro lugar ou outros professores. O nível geral dos cursos de História é abaixo da média das demais licenciaturas, que já estão no patamar da gilete no ladrilho, e a graduação se tornou um recrutamento de militantes, sobretudo para partidos autoclassificados de esquerda. Trata-se de evolução tecnológica, pois cada estabelecimento de ensino se transforma numa fábrica de asno, com a confirmação darwiniana: burrinho evoluído, misto de lesma com papagaio, sua capacidade se limita a repetir o que ouve.
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Assim, é cada vez menor o número de mestres que tentam “explicar as raízes”. Cegos pela ideologia, professores desviados desmentem o próprio 1822. Para parte deles a “independência” do Brasil se deu com a eleição de Lula 180 anos depois. O restante prega que não houve até hoje independência (“Ainda dependemos dos capitalistas!”, bradam em passeatas, algumas delas no Twitter) nem proclamação da República (“Ainda somos governados pelo Rei do Gado, pelos Príncipes dos Bancos, os Condes do Minério”, dizem em megafones, alguns deles no YouTube) e muito menos Lei Áurea (“Mais de 40 horas semanais é escravidão”, escrevem em muros e blogs).
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Estudante com esse tipo de professor fica bitolado — e nos trilhos da Centro-Atlântica, do início do século anterior, não da Norte-Sul, a ferrovia que integra o País, um sonho desde os tempos de D. Pedro, pois Lula fez em dois mandatos o que a zelite num fizero no zúltimo quiento zano. Bobagens do gênero são repetidas nas salas de aula, primeiro, para os graduandos em História e, depois, por eles, para os alunos deles. Prejuízo maior: esse aluno de História vai terminar o 3º grau e, imediatamente, ser convidado a ser professor de... 3º grau, nível superior apenas no nome, já que o Ministério da Educação autoriza gradução não-presencial, via e-mail, e, a se basear no anacronismo do que ensinam, até por caixa postal, fax, telex e sinais de fumaça. Se for péssimo acadêmico, mas tiver bom trânsito com a turma de cima, é escolhido para mestrado e doutorado. É a pós-graduação do pré-histórico.
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Gomes bisa o chavão do “país sem memória”, mas felizmente trabalha por ela. Tanto em 1808 quanto em 1822 faz sua parte tentando implantar um chipzinho no cérebro de quem tem (cérebro, não chip). Difícil. A política oficial, do Oiapoque ao Chuí, é aprovar aluno sem saber nada, para inflar os números da educação, em busca de reconhecimento internacional. Pode ser relapso, não fazer sequer uma lição, fugir da escola, enfim, aprontar o que quiser — em vão: está aprovado, passou de ano. Em vez de criticar esse sistema fajuto, apedreja-se o professor que exige o mínimo, que tenta fazer o aluno estudar. Implantou-se o paulo-freirismo em tudo, “olha, gente, não gosto que me chame de professor, porque eu não estou aqui para ensinar nada, quero é discutir com vocês, quem faltar ou tirar nota baixa pode fazer um trabalho em grupo valendo nota e presença”. Infelizmente, eis a síntese da realidade do ensino público e, em escala menor, do particular.
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Professor tem de ensinar, sim; tem de punir, sim; tem de dar bronca, sim, em estabelecimento público ou privado. Não se conhece um sujeito que tenha ficado biruta por apanhar de palmatória dentro da escola. Tudo bem, castigo físico nem para preso, agride os direitos humanos, nhenhenhém, nhenhenhém, mas é preciso mostrar autoridade, impor limite, cobrar, sentenciar. Nem a pedagogia do pescoção nem a do passe-livre para a malocagem. A formação de jumentos (referência aos dotes intelectuais, frise-se) recebe incentivo dos governos, que consideram o máximo de democracia instituir eleição direta para diretor de escola e reitor de universidade pública. Adivinhe se um professor que tenta o óbvio (fazer o aluno estudar de verdade) tem chance de ser eleito.

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“Filhos de Lula”
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Lula é analfa de mãe e beto de pai, mas por vontade, não por necessidade. Simplesmente resolveu não estudar e pronto, oferecendo péssimo exemplo. Passou mais de 20 anos sem trabalhar, recebendo gorda aposentadoria, portanto, com tempo e dinheiro suficientes para iniciar o pré-primário e concluir qualquer curso superior, mas preferiu ser feliz, destino dos tolos. Lula, ao menos, assume ser iletrado. E seus antecessores? Calcula-se que Fernando Henrique Cardoso e José Sarney sejam intelectuais, pois não lhes faltam títulos, inclusive de livros. Bom, se FHC e Sarney estão no time dos que se servem da cabeça não somente para fazer gol em peladas no Planalto, como agiriam no cargo de presidente em visita a uma nação amiga detentora de laços históricos com o Brasil?
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Imagina-se que os dois sabichões não ficariam recheando o anedotário, papelão exercido por Lula em suas muitas visitas a ditaduras amigas do alheio. Pois em duas passagens realmente apuradas por Laurentino Gomes os presidentes pós-regime militar se portaram como o transeunte que interrompe o ir-e-vir para ver um acidente só por perceber a multidão se formar. No mandato de presidente da República, FHC visitou a cidade do Porto, em Portugal, e, claro, príncipe da Sociologia que supõe ser a monarquia dos letrados, tinha de demonstrar interesse pela História. Afinal, foi ali que a voz da independência do Brasil liderou seus compatriotas contra o absolutismo. Mas não. Não FHC, o defensor do uso de drogas. Fez um papelão de quem fuma maconha estragada: pediu para ver o coração de D. Pedro.
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Sim, ele está lá, confirma Gomes: “Em 1972, ano do Sesquicentenário da Independência, seus (de D. Pedro) restos mortais foram trasladados da igreja de São Vicente de Fora, local do sepultamento em Lisboa, para o Mausoléu do Ipiranga, em São Paulo”, mas “seu coração permanece na igreja da Lapa”, no Porto. Espécie de voyeur bizarro, FHC pediu à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, responsável por conservar o coração, segundo Gomes. Não queria saber de nada da história, já é um sabe-tudo, professor de Deus. Interessava-lhe a parte da anatomia na qual foram guardados muitas mulheres e até o Brasil inteiro.
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O país todo, não, mas o órgão cresceu. “Por um curioso fenômeno fotoquímico”, informa Gomes numa das raras passagens do livro realmente pesquisadas por ele in loco, “o coração de D. Pedro se expande continuamente dentro da ânfora de cristal em que foi depositado após a sua morte, em 1834”. Tão deformado que os administradores da igreja decidiram “resguardá-lo da curiosidade pública mantendo-o lacrado na escuridão atrás de uma parede”. FHC foi “o último brasileiro autorizado a vê-lo”. O que o Brasil ganhou com isso? Nada vezes nada. Se, em vez de FHC, o político brasileiro em visita ao Porto fosse Tiririca talvez o desejo se revelasse menos esquisito.
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Igualmente cumprindo seu papel de jornalista pesquisador, Gomes entrevistou amigos de Sarney que confirmaram: o ex-presidente violou mesmo o túmulo de Thomas Alexander Cochrane na Abadia de Westminster, em Londres. Lord Cochrane, uma lenda dos mares chamado por Gomes na capa do livro de “um escocês louco por dinheiro”, colaborou com D. Pedro na manutenção do mapa do Brasil, mas a seu jeito: saqueando tudo. Sarney tem sido muito pior para o Maranhão que Cochrane, o porém é o mercenário ter comandado a rendição dos partidários do domínio português e tomado São Luís, a capital da província. O terror do lorde foi proporcionado uma só vez, Sarney comete atrocidades contra os maranhenses há meio século.
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Nas palavras de Gomes, “em visita oficial à Abadia de Westminster”, Sarney teria chutado o túmulo de Cochrane e circulado-o falando o que em sua cachola era um xingamento: “Corsário!”. Para Gomes, “foi um momento de ira e vingança”. Noticia que Sarney disse a um amigo: “Pisei, pisei mesmo e com gosto”. Em artigo no recém-falecido Jornal do Brasil, citado por Gomes, “Sarney conta que apenas passou ao lado da tumba, enquanto murmurava a palavra ‘Corsário!’”, mas “a uma fonte, entrevistada pelo autor, no entanto, afirmou ter pisado sobre a lápide em sinal de desprezo”. Enfim, não apenas Lula vai ao exterior cometer gafes.
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Cochrane agiu em outros Estados e países, assim como Sarney. Apesar de nunca ter morado em Macapá ou em qualquer dos 16 municípios do Amapá, Sarney é um personagem pré-livro de Gomes: chefia uma corte criada e sustentada por verbas públicas, considera cada Estado uma capitania hereditária. Mas, diferente de D. Pedro, que era apenas imperador, Sarney é o dono do Maranhão, do Amapá e do Congresso Nacional. Em diversos momentos, age como se fosse proprietário do presidente da República. Qual presidente? Qualquer um, pois adere a todos. Deu Dilma? Tá dentro. Enfim, com 188 anos de atraso, 1822 chegou ao Amapá, com Camilo Capiberibe eleito governador.
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Camilo é filho de Janete e João Capiberibe, cassados pela Justiça em consequência de serem caçados por Sarney. Em 2002, João derrotou o ridículo Gilvam Borges (sua grande contribuição no Senado é trabalhar calçando sandálias), fantoche de Sarney, e se elegeu senador. Aí momentos de ira e vingança de Sarney foram muitos — mais que o manifestado no túmulo do lorde na famosa abadia londrina. Sarney não sossegou até tirar João do Senado e Janete da Câmara dos Deputados. Qual o crime do casal? Nenhum. Aliás, um: se opor ao maranhense louco por poder.
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Semanas atrás, a Polícia Federal prendeu quase o palanque inteiro de Sarney (18 sarneyzistas algemados e enjaulados) no Amapá e, talvez por isso, seus aliados tenham dançado: Pedro Paulo ficou em 4º lugar para governador, mesmo estando no cargo; e Waldez Góes também em 4º, atrás da surpresa Randolfe Rodrigues, do PSol (em 1º), de João Capiberibe (que está na Justiça reivindicando) e, aaaargh, Gilvam Sarney. Na eleição de 2006, perigou o velho cacique perder a própria vaga para Cristina Almeida, aliada dos Capiberibe e inimiga do bigodudo louco por dinheiro. Cristina Almeida, agora vereadora em Macapá e eleita deputada estadual, milita no movimento negro e é líder comunitária. Ousou enfrentar Sarney em 2002 como Randolfe o encarou neste ano. Ela, quase; ele, tchuf na cabeça dos ladrões. Se houvesse Justiça e valessem apenas os votos do povo, a bancada do Amapá no Senado seria de dar orgulho: Cristina, João Capiberibe e Randolfe, algo que nunca se viu na história desse país.
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O império das citações
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Apenas no capítulo “D. Pedro I”, com 12 páginas e meia, contadas as transcrições, Laurentino Gomes cita onze vezes o historiador Octávio Tarquínio de Sousa. E é citação em cima de citação. São seis notas (citações de autores/obras) para as nove páginas de introdução, 17 para as 12 páginas de “O grito”, nove para as 10 páginas de “O vendaval”, 22 para as 11 de “O país improvável”, 20 para as 12 de “Os brasis de D. João”, 35 nas 13 de “As cortes”, 15 nas nove em “De Minas ao Ipiranga”. Sossega que prossegue. O “D. Pedro I” tem, além das onze de Tarquínio, outras 24, com média de quase três por página, ou 35 em 13. Ufa!, as notas continuam: 34 em 14 páginas de “A princesa triste”, 29 nas 12 páginas de “O homem sábio”, 16 nas 11 de “A guerra”, 22 nas 12 de “Louco por dinheiro” (sim, tem Sarney no meio), oito nas cinco de “A Batalha do Jenipapo” 23 nas 12 de “A Bahia”. Calma, falta pouco: 21 notas/citações nas 12 páginas de “O trono e a constituinte”, 19 nas nove de “A confederação”, 20 nas nove de “A maçonaria”, 29 nas 10 de “Os órfãos”, 36 nas 16 de “A marquesa”, 14 nas nove de “O rei português”, 23 nas 13 de “Adeus ao Brasil”, 20 nas 12 de “A guerra dos irmãos”, nove nas cinco páginas do capítulo final que se chama, adivinhe a surpresa!, note a criatividade, “O fim”. Pegue a calculadora do celular e some: são 482 notas/citações em 250 páginas de texto. Para lembrar os jornalistas da “grande imprensa” quando querem sacanear alguém, vamos combinar: se excedeu nas citações.
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Observe que são capítulos curtinhos para não cansar o “leitor” que não tem costume de... ler. Ah, vou ler um capítulo por dia, são dez páginas, tá bom, né? Essa categoria de “leitor” só compra (ou xeroca, porque trabalho escolar é um capítulo para cada grupo e eu só vou ler o que tocou para mim, num é, fessô?, e tô indo agora na xeróquis do CA/grêmio) o livro a mando do professor de História e certamente passará direto pelos trechos dos créditos. Descontados essas partes, 30 e poucas páginas para 22 capítulos, dá tempo de assistir “Malhação”. Os números dos créditos/citações/notas fornecem duas notícias, uma boa, outra ruim. Qual quer primeiro? A boa? Tá. A boa notícia é ter pesquisado, ainda que basicamente em campo fácil, dando o devido crédito a quem de fato fez as descobertas ou teve o mérito do pioneirismo. A má notícia é ter apenas isso, o rol de obras/autores, sem questionar os dados, sem acrescentar novidades, sem apresentar versões conflitantes. Todos que escreveram sobre esse período da História do Brasil estão 100% corretos ou as livrarias ganharam um exemplar mais grosso da Seleções do Reader’s Digest.

9.10.10

Niilismo precoce

Neste tour de force de narrativa impressionista, acompanhamos as sensações e perplexidades de um grupo de estudantes em Brasília, cujas vidas se arrastam sem um sentido maior, divididas entre a universidade, os compromissos sociais pouco sérios e o consumo cavalar de cultura de massa, representada pela TV, cinema, música, videogames, internet e derivados — como blogs, fotologs e YouTube —, sempre na expectativa de que algo significativo vá preencher essas vidas, da mesma forma que as imagens no computador preenchem a tela, muito embora o excesso de imagens e de informação torne a vida ainda mais vazia e as pessoas mais ignorantes. Em cada nova impressão de algum personagem palpita um esforço para encontrar em cada coisa um sentido, um signo, um sinal, que no entanto não existe, por isso impossível.

Revisitando o spleen ou tédio de Álvares de Azevedo, os jovens brasilienses de Vinicius Castro vão gradualmente percebendo que o tempo e o espaço não precisam de nós, antes nos ignoram olimpicamente, que a existência não é forjada por acontecimentos e peripécias, e sim pela somatória de impressões gravadas no cérebro, que não há de fato lições a aprender ou a ensinar, mas tão somente sensações às quais reagir, ou não reagir. Preferivelmente não reagir. Há poucas reações a tudo em Os sinais impossíveis: a ditos espirituosos, a rompantes ideológicos intelectuais, ao sexo. O niilismo perpassa a narrativa como uma névoa na qual despontam luzes de diversas cores, mas sem intensidade suficiente para romper o invólucro gasoso.

Meus olhos continuam fechados, vão se abrir daqui a pouco com alguma expectativa diante daquela coisa toda, a repetição que eu preciso sustentar e aceitar, a retomada. O mundo cheio de graça esperando que eu o ganhe de volta, que eu disperse todos os restos e o bote para funcionar, que eu viva deliberadamente.

Estatelado bêbado no chão, um dos moços reflete: “Eu temo pelo que a umidade e a sujeira do meio-fio podem fazer com minha calça, mas não é como se fosse fazer algo sobre o assunto”.

Em meio a essa inundação de descobertas precocemente envelhecidas e degeneradas em frustrações, emerge o romance vacilante de João e Luísa, rapidamente enredado na teia de relações humanas cada vez mais difíceis e sufocado pela série de rituais que tentam forjar a nossa realidade. O principal personagem, no entanto, é a própria narrativa, que por meio da descrição dos mais prosaicos objetos e gestos faz derramar de cada página um fluxo lírico quase ininterrupto de imagens embaladas por um vocabulário profundamente musical e pontuadas, aqui e ali, por diálogos de acentuado coloquialismo.

Os sinais impossíveis pode ser visto como um magnífico exercício de impressionismo na literatura, mas também como uma crítica poética à sociedade de produção e consumo, responsável pela banalização dos relacionamentos, pela falência de ideais e valores, pela deterioração dos padrões culturais e por limitar os sonhos da juventude a gratificações instantâneas, tão efêmeras quanto websites, nessa gigantesca engrenagem capitalista que reduz os indivíduos a uma massa virtual configurada para consumir ou ser “deletada”.

28.6.10

Barack, o filho do Brasil

Em janeiro de 2009, Barack Hussein Obama II tornou-se o primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América, país onde o preconceito racial sempre foi mais virulento que em qualquer outro sob o sol.

Empossado no cargo de maior poder executivo do mundo depois de este ter sido ocupado durante oito anos pelo corrupto e ultraconservador George W. Bush — que violou liberdades individuais dentro da terra do Tio Sam e direitos humanos fora dela, ensanguentou o Oriente Médio sob pretextos falsos com propósitos lucrativos escusos, e mergulhou o seu próprio país, o mais rico do planeta, numa das piores recessões econômicas de sua história — o jovem, brilhante e carismático senador negro e descendente de muçulmanos passou a encarnar as esperanças de boa parte de sua nação e do mundo, foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz e se tornou um símbolo de esperança, renovação e vitória das minorias sobre a opressão e o racismo, mas também alvo do ódio de reacionários furibundos, neonazistas e outros insanos defensores da supremacia branca.

Foi então, em meio a este idílio entre o novo presidente democrata norte-americano e o mundo civilizado, que Fernando Jorge, um dos autores mais polêmicos do Brasil, armado com a lente de aumento da observação, perspicácia e erudição esbanjadas em cada um dos seus vinte livros, conseguiu detectar num incidente prosaico na vida da mãe desse grande homem algo que havia escapado a todos os olhares: um vínculo inequívoco entre o Brasil e o nascimento de Obama, permitindo ao biógrafo definitivo de Olavo Bilac, Aleijadinho, Paulo Setúbal e outros brasileiros egrégios, conceber uma teoria absolutamente brilhante e inusitada, segundo a qual o 44º presidente dos Estados Unidos deve sua própria existência à arte e poesia brasileiras — fortemente influenciadas pela cultura negra —, sendo portanto um brasileiro em espírito, se não por nacionalidade.

Com tão revolucionária tese à guisa de fio condutor, este livro originalíssimo discorre não somente a respeito da origem e ascensão de Obama, mas também sobre os abusos sofridos pelos negros nos Estados Unidos e no Brasil, as relações por vezes tensas entre esses dois países, o filme Orfeu Negro, que teria fecundado a mãe branca de Obama, a obra do poeta Vinicius de Moraes, espécie de avô espiritual de Barack, as ameaças que pairam sobre a vida deste como uma espada de Dâmocles — ou mais precisamente da Ku Klux Klan — e diversos outros tópicos prenhes de informações inestimáveis sobre cultura, política, arte e história, brasileiras e estadunidenses.

Segundo a mitologia grega, Orfeu amansava as bestas e encantava os humanos com o som de sua lira. Se o pacificador Barack Obama pode ser visto como uma espécie de Orfeu negro, Fernando Jorge tem também procurado emular o semideus da Trácia no empenho incansável de arrancar seus compatriotas da barbárie, embalando-os com a música de sua prosa erudita e bem-humorada, ou ainda, a exemplo de outro semideus, travando combate aguerrido à hidra da imbecilidade, decepando-lhe as múltiplas cabeças da ignorância e do preconceito, mais titã que semideus, embora sempre inspirado pelas musas.

11.11.09

O símbolo secreto

Toledo, 1523. “Saibam todos os que lerem este manuscrito, que eu, Iacobus de Cartago, decidi revelar onde se esconde a verdadeira face de Deus, Nosso Senhor.” Por escrever essas palavras, o mestre-escultor Iacobus de Cartago incorre na fúria homicida dos Filhos da Viúva, que o matam após torturá-lo cruelmente, perfurando-lhe os olhos que não deviam ter visto, e arrancando-lhe a língua que não devia ter falado sobre o que viu.

Séculos depois, nos dias atuais, o manuscrito de Toledo cai nas mãos do paleógrafo Jorge Balboa, que o traduz e acaba assassinado da mesma forma cruel e sangrenta que o mestre-escultor. Antes de morrer, no entanto, Balboa envia por correio eletrônico uma cópia do manuscrito cifrado ao seu amigo, o bibliotecário Leonardo Cárdenas, que então passa a ser perseguido pelos assassinos. Agora Leo não tem escolha: para salvar sua própria vida, precisa elucidar o mistério cuja descoberta custou a vida de dois homens inocentes.

Guiado pelo manuscrito de Toledo e por pistas encontradas nas catedrais góticas, na epopeia dos cavaleiros templários, na Bíblia, nas Centúrias de Nostradamus e em outros documentos herméticos, Leonardo parte numa busca frenética que o coloca no rastro do objeto mais sagrado de todos os tempos, a mítica Arca da Aliança, em meio a decifrações de intrincados hieróglifos, charadas e anagramas, auxiliado pela sua namorada, a bela historiadora Cláudia, pela criptógrafa Cristina, e o tempo todo caçado por Lilith, a diabólica matadora de aluguel.

A emocionante aventura levará os três estudiosos da Espanha até o Egito, onde, na Grande Pirâmide de Gizé, jaz a chave do maior segredo da humanidade, ciosamente ocultado pelos maçons, os Filhos da Viúva, e o final dessa jornada repleta de revelações surpreendentes será nada menos que o Juízo de Deus, quando será preciso galgar a Escada de Jacó para ir ao encontro da Sabedoria.

7.11.09

Querido diário...

Entrevista que dei à Geração Editorial (ver aqui) por ocasião do lançamento do Diário do Diabo, de Nicholas D. Satan (o próprio), traduzido por mim.


Você teve que vender sua alma ao Diabo para poder traduzir a obra dele?

Claro que sim. Assinei com sangue aquele mesmo contrato que vem anexo ao Diário. Por enquanto, não recebi nada em troca (exceto o privilégio de traduzir o Diário), mas ainda tenho esperança de que Mr. Satan vai honrar os termos do contrato e entregar a minha quota ilimitada de riqueza, fama, poder e mulheres. Afinal, num país que acreditou nas promessas do Collor e do Lula a ponto de elegê-los presidentes, não é nem um pouco absurdo acreditar que o Diabo vai cumprir as dele.

Como este manuscrito recebido pela primeira vez pelo professor americano M. J. Weeks chegou até você?

Lógico que na era da globalização o Capeta também fala e escreve em inglês, por isso o professor Weeks, que publicou o Diário nos EUA, precisou de tradutores nos vários outros países onde o livro está sendo publicado. Existem no Brasil inúmeros tradutores melhores que eu, mas no final Mr. Satan escolheu a mim porque, como eu escrevi um livro sobre Jack, o Estripador, ele acreditou que eu também fosse um maníaco homicida, ou seja, alguém próximo ao coração dele.

É uma artimanha do Demo o fim do mundo como consta no livro O mistério de 2012?

Destruir o mundo, como o próprio Satan explica no seu Diário, não é o tipo de coisa que ele faz, e sim coisa de “Deusão”, ou “Todo-Foderoso”, entre outros apelidos irreverentes com que ele se refere a Deus, o seu ex-chefe. Satan admite que aprecia uma “carnificina básica”, mas que quando passa disso, é ruim para os negócios dele, mais especificamente para a Satancorp, sua empresa, segunda mais antiga do Universo depois da de Deus. Eis o que ele diz após o Dilúvio: “O dano causado pela inundação interrompeu gravemente as atividades no mundo subterrâneo, e ainda não saímos do atoleiro. Ficamos sem comunicação, justo quando precisamos mais dela, pois o Dilúvio resultou num influxo enorme de almas perdidas, e transportá-las para cá tem sido um problema. Todas as minhas boas intenções vão ter de esperar, pois nossa prioridade agora é asfaltar de novo a estrada para o Inferno”.

Portanto, acho mais provável que Mr. Satan tenha tomado conhecimento, por meio dos seus espiões, de que “Deusão” vai destruir o mundo de novo em 2012 e está espalhando a notícia, na esperança de que as ações da Satancorp subam, já que a maior parte da humanidade vai para lá como mão-de-obra escrava.

Você também traduziu o livro Papisa Joana, da Donna W. Cross, que em breve estará nas telas dos cinemas brasileiros. A Papisa também foi uma funcionária do Satanás?

Foi sim, mas ela foi também uma decepção para ele. Como ele diz no ano 590: “Achar um meio de me inserir na Igreja foi mais fácil do que pensei. A ridícula regra de celibato nos monastérios e conventos (nem eu teria tido uma ideia tão cruel) deixou a porta escancarada para a tentação. É de admirar a quantidade de monges e freiras que se inscreveram para ter a chance de uma ou duas relações pecaminosas”. Para ridicularizar de vez a Casa de Deus, Satan fez com que Joana, disfarçada de homem, fosse eleita papa. Mas daí ela quebrou o acordo e começou a ser um bom papa. Foi então que Mr. Satan usou com ela o mesmo artifício que já tinha usado no Jardim do Éden com Adão e Eva (no apontamento do dia 1º do sexto mês do ano um); o resultado foi que a Papisa ficou grávida.

Mas, graças aos fundamentalistas, a religião continua sendo uma das principais ferramentas do Diabo, como ele mesmo diz na pág. 153 do Diário: “Deusão está quebrando a cabeça nas altitudes celestiais para descobrir onde foi que tudo deu errado, enquanto seus leais servidores fazem o meu trabalho por mim. Eu gostaria de ter tido a ideia da religião”.

Qual revelação feita no Diário do Diabo que mais chocou você?

A revelação que mais me chocou foi a que ele fez sobre o Jack, o Estripador, no apontamento datado de 10 de novembro de 1888. Não só ele conta que esse assassino era um agente dele, como também revela a sua verdadeira identidade. Ora, no livro Jack, o Estripador – a verdadeira história, 120 anos depois, eu apontei esse suspeito como um dos menos prováveis, de modo que agora fiquei completamente desmoralizado.

Nicholas também revela no seu diário a aproximação e ajuda que deu à carreira de Bill Gates. Em troca do sucesso – nos seus contratos maquiavélicos – Bill vendeu a alma ao Diabo e deixou que dois funcionários do Satanás implantassem os bugs e os erros nos softwares. Como será que os profissionais da área de TI reagirão diante desta revelação?

Acho que todos eles vão mandar seus currículos para a Satancorp, mas vão se decepcionar, pois a empresa só está dando emprego a hackers. No anúncio que Nicholas D. Satan publicou na Gazeta Celestial para recrutar anjos caídos, está escrito: “Histórico empregatício ruim e ficha criminal são recomendáveis, mas experiência anterior nenhuma é necessária”.

Parece que Satanás gosta do nome “em vão” e de mídia – as páginas policiais, as mais lidas dos jornais, são todas de feitorias dele. Sendo assim, ele deve estar muito feliz com a publicação e o grande sucesso do Honoráveis Bandidos – Um retrato do Brasil na era Sarney, com revelações diabólicas sobre a família que se enriqueceu a custo de muita corrupção?

A família Sarney tem vários contratos com a Satancorp (por exemplo a Lunus, empresa da Roseanta Sarney e do marido dela, é uma das subsidiárias da Satancorp no Brasil, juntamente com a extinta Sudam, a Igreja Universal do Reino de Deus, e inúmeras outras). Foi graças à ajuda de Mr. Satan que o Sarney conseguiu transformar o Maranhão num quintal dele e boa parte do Brasil num feudo seu e da sua família. Mas o problema do corrupto no país da impunidade é o mesmo do bêbado que toma conta do bar: não consegue parar. O Sarney ficou tão deslumbrado que começou a fazer conchavos, cambalachos e negociatas sujas, do tipo que ele fez a vida toda, a fim de subornar tantos acionistas da Satancorp quantos fossem necessários para elegê-lo o novo CEO do grupo, que passaria a se chamar Sarneycorp. A cartada final para conseguir isso seria a eleição da filha dele, Roseanta Sarney, à Presidência da República em 2002. É claro que o Satan não gostou nem um pouco, e resolveu dar uma lição no seu arrogante sócio minoritário, soprando no ouvido do José Serra o esquema fraudulento da Lunus. O resto todo mundo sabe, e está no livro do Palmério: a Polícia Federal apareceu lá, descobriu aquela dinheirama toda, e o sonho da Roseanta presidente do Brasil foi para o ralo. Mas o Sarney já fez as pazes com seu benfeitor, que mexeu os pauzinhos para evitar que fosse afastado da Presidência do Senado. São, no fundo, como irmãos.

30.10.09

Nuvem nada passageira

Todo grande personagem é inspirado por uma entidade que o orienta, auxilia ou abandona. Napoleão por sua estrela (da qual Josefina seria a personificação), Sócrates por seu demônio, Joana d’Arc por suas “vozes”, Sebastião Nery por sua nuvem. Uma nuvem que, por sinal, fez chover na sua horta, tornando-o um dos mais respeitados jornalistas brasileiros e cronista-mor da nossa época, além de professor, advogado, político, e, sobretudo, homem de letras, na acepção mais ampla do termo. Com o presente livro, que acrescentou aos seus 15 anteriores, Sebastião Nery também merece agora figurar entre os memorialistas do calibre de Graciliano Ramos e de Pedro Nava, mas nunca de Brás Cubas, pois a despeito da qualidade machadiana do seu estilo, estas memórias nada têm de póstumas; ao contrário, vibram e pulsam com a energia vital que amplamente tem desmentido, ao longo de 77 anos, o “defuntinho”, como o frágil recém-nascido Nery foi apelidado, tão improvável parecia a sua sobrevivência.

A Nuvem inicia-se em 1944, quando o precoce menino Sebastião é levado de sua Jaguaquara natal para o seminário, e encerra-se aquando do seu retorno da adorada Paris para o Brasil, em 1994. Proporcionando-lhe uma formação acadêmica invejável após dotá-lo do intenso amor ao saber que resultou em erudição caudalosa, a nuvem de Nery conduziu-o pelo mundo inteiro como jornalista e adido cultural, e por todo o Brasil nas campanhas políticas mais efervescentes da nossa volátil democracia, como as de Juscelino em 1955 e das Diretas em 1984. Episódios prosaicos como o primeiro contato com luz elétrica aos 4 anos ou a descoberta do amor, e outros nem tanto, como o encantamento juvenil pelo comunismo e a prisão sob a ditadura militar, tornam-se instantaneamente lições de vida depois de filtrados pela enxuta e elegante prosa neryana. Kubitschek, Brizola, Collor ganham nova dimensão uma vez contemplados pela nuvem. Aliás, poucos nesses 50 anos são os personagens relevantes da nossa história sobre quem Nery não tenha algo relevante a contar, ou mesmo, que não tenha conhecido em pessoa, todos matéria-prima inexaurível para as anedotas com que enriquece incansavelmente o folclore político nacional.

Se erguermos os olhos para acompanhar a trajetória tão rica e fecunda da nuvem de Sebastião Nery, veremos que ela não é nem um pouco passageira: veio para ficar.

25.9.09

Um livro necessário

No centro de São Luís, dois do povo conversam: “Qual a pior coisa do Maranhão?” “A família Sarney.” “Qual a melhor coisa do Maranhão?” “Ser da família Sarney.”

O diálogo faz parte do anedotário maranhense e ganhou sabor nacional quando José Sarney ocupou pela terceira vez a presidência do Senado, em 2 de fevereiro de 2009. Todas as conexões da famiglia, assim mesmo, no sentido mafioso, vieram a público. Um escândalo atrás do outro se revelava.

Com 50 anos de vida pública, o político mais antigo em atividade no país começava sua descida ao inferno. É a partir dali que este livro puxa o fio da meada. E compõe, com as ferramentas do melhor jornalismo, mas sem perder o bom humor, um retrato do Brasil na era Sarney. O Sarney velho de guerra, especialista em urna viciada, cria de coronel, cevado na ditadura, o Sarney da UDN, da Arena, do PDS, do PFL, da desastrada “Nova República”, do estelionato do Plano Cruzado, da cumplicidade no sequestro da poupança promovida por Collor em 1990, do loteamento do setor elétrico. O coronel eletrônico fechado com qualquer governo, enquadrado em formação de famiglia.

Não se forma uma famiglia sem grandes aliados do mesmo naipe. Ele se cercou de gente da pior estirpe, como Edison Lobão, um dos Três Porquinhos — quem se lembra desse episódio grotesco da história recente do Brasil? Honoráveis figuras como Edemar Cid Ferreira, do liquidado Banco Santos; Renan Calheiros, Gim Argello, Agaciel Maia, Michel Temer, Wellington Salgado, Silas Rondeau, uma turma enrolada em tudo quanto é tipo de rolo. Toda a parentalha de sangue e suas histórias inacreditáveis, filho, irmão, neto procurados ou investigados pela Polícia Federal.

Este é um livro necessário. O historiador do futuro contemplará, como num painel, a época em que poucas vezes neste país se constituiu, à margem do poder legal, o verdadeiro e podre poder baseado na corrupção, em todos os seus sentidos. E o brasileiro de bem dos dias que correm entenderá por que às vezes lhe vem a tentação de desistir, por nojo, da política e dos políticos.

Contudo, leitura salutar. Conhecer as causas da náusea ajuda a encontrar o remédio.

(Este texto na orelha do livro não é de minha autoria.)


“Sarney é político sem luz, orador bisonho, poeta menor e escritor medíocre.”
Augusto Nunes, na revista Veja

“Sarney, devolve o Maranhão pro Brasil!”
José Simão, na Folha de S. Paulo

“José Sarney foi um dos piores presidentes da República que o Brasil suportou. Provinciano e medíocre, instaurou no Maranhão uma das mais implacáveis e reacionárias oligarquias já vistas, condenando sua terra e sua gente a condições de miserabilidade, analfabetismo e atraso econômico e social dignas de um soba africano.”
Hélio Fernandes, na Tribuna da Imprensa