28.12.07

Muita sombra e pouco Goya

O judeu tcheco Milos Forman passará à história do cinema hollywoodiano como diretor de apenas um grande filme: Amadeus, de 1984. Seus outros filmes são apenas razoáveis, e o último, Goya’s Ghosts – estupidamente traduzido aqui como Sombras de Goya, não como Fantasmas de Goya –, é, no máximo, interessante, e mesmo assim somente para aficionados por Goya e por História.

O problema principal do filme é o próprio Francisco Goya, pintor da corte espanhola. Ele não é o protagonista, ao contrário do que o título possa sugerir; não é sequer um personagem propriamente dito, e sim um mero espectador do que acontece à sua volta, bem como testemunha das transformações que sacudiram a Espanha na virada do século XVIII para o XIX, as quais ele registra em suas pinturas e gravuras. É uma pena para o impecável ator sueco Stellan Skarsgärd, que perdeu a chance de mais um bom desempenho.

De um modo geral, o período evocado pelo filme é demasiado rico em acontecimentos históricos para fazer jus a conflitos humanos individuais, por isso todos os personagens são emblemáticos. O exemplo mais evidente disso é o padre Lorenzo, interpretado por Javier Bardem, que começa como inqusidor-mor, ajudando a tornar a Inquisição ainda mais desumana do que já era. Quando as tropas de Napoleão invadem a Espanha e põem fim ao reinado de terror dos monges dominicanos, o padre renegado vira a casaca e se torna ministro do novo rei, José Bonaparte, irmão de Napoleão. A cena de que mais gostei foi o rei republicano separando quadros de Velásquez para enviá-los ao imperador em Paris, rejeitando, porém, os de Bosch, ou El Bosco, como os espanhóis o conhecem.

O filme abunda em símbolos e metáforas, já que um dos roteiristas é Jean-Claude Carrière, que trabalhou com Buñuel. Logo no início vemos, durante uma caçada do decadente Carlos IV da Espanha (avô de nosso dom Pedro I), dois abutres lutando pela carcaça de um cordeiro, alusão à Espanha disputada pelas rapinantes potências da época.

Particularmente desagradável e excessivo é o massacre sem trégua, durante o filme inteiro, da jovem, inocente e bela Inês, personagem interpretada pela apetecível Natalie Portman. Presa e torturada pela Inquisição por não gostar de porco – o que para a jurisprudência viciada desse tribunal eclesiástico constituía prova de prática de rituais judaicos – a pobre moça é ainda abusada pelo infame Lorenzo numa sórdida enxovia, onde é deixada apodrecendo por quinze anos. Quando todos os prisioneiros da Inquisição são libertados pelos franceses, Inês, reduzida a um trapo humano, sai da masmorra apenas para descobrir que as mesmas tropas que lhe deram liberdade mataram toda a sua família, e para ser aprisionada de novo, desta vez num hospício, pelo mesmo Lorenzo – agora mais republicano que Robespierre –, sem jamais reencontrar a filha cujo pai era o ex-padre. E o pior de tudo é que a infeliz continua apaixonada até o fim pelo miserável que a destruiu. Inês lembra um pouco Ana, de Ana e os Lobos, estuprada e assassinada por três homens que representam os poderes opressores da Espanha de Franco. Inês – cujo nome em latim quer dizer “cordeiro” – é a Espanha, eternamente apaixonada por seus opressores.

Mais uma metáfora: Goya fica surdo a partir da segunda metade do filme, quando o país luta para se livrar dos invasores franceses. Se a mulher espanhola ama quem a “fode”, o homem espanhol não escuta à voz da razão.

Curioso também que, quando os ingleses expulsam os franceses da Espanha – e a filha de Inês, Alicia, que havia se tornado prostituta, acaba como a nova amante de Wellington – é restaurada não só a decadente monarquia espanhola, na pessoa do incompetente Fernando VII, mas também a execrável Inquisição. Ora, foram justamente os historiadores ingleses, desde os conflitos entre Inglaterra e Espanha no século XVII, que pintaram a Inquisição espanhola com as tintas diabólicas que até hoje não se desbotaram. Pois antes de se tornar mero instrumento de terror e poder, esse tribunal chegou a servir à Justiça, cujo conceito era bem diferente do que conhecemos hoje.

Se Fantasmas de Goya funciona melhor como História que como Cinema, é preciso observar que o drama de Inês é historicamente improvável. A perseguição da Inquisição aos marranos ricos – e Inês, no filme, é de família rica – tinha propósitos pecuniários bem como teológicos. Quando um infeliz era acusado de heresia e, sob tortura, confessava sê-lo, o interrogatório da Inquisição procurava fazer com que toda a família fosse implicada também, pois os bens dos “hereges” eram confiscados pelo sinistro tribunal. Ora, isso não acontece no filme, embora Bilbatúa, o pai de Inês, fosse rico e descendente de judeus; ele seria, na verdade, uma presa muito mais atraente para a cobiça inquisitorial do que a sua filha.

Condenada juntamente com o pai e o noivo, Branca Dias, da ótima peça de Dias Gomes O Santo Inquérito, é uma vítima da Inquisição muito mais plausível e convincente do que a Inês interpretada pela judia Portman e dirigida pelo filho de vítimas de Auschwitz Forman. Dominada pelo lobby judaico, Hollywood tem mania de exagerar nos paralelos entre a Inquisição e o Holocausto, coisas completamente diferentes.

19.12.07

Entender para quê?

Devo muito a Luiz Carlos Lisboa, que em seu Pequeno Guia da Literatura Universal indicou os livros que nenhum leitor esclarecido pode ignorar impunemente. Graças a ele conheci H. P. Lovecraft, um dos precursores do realismo fantástico, e também José J. Veiga, representante brasileiro maior do realismo mágico, com seu kafkiano Sombras de Reis Barbudos, que terminei de ler ontem.

Nunca me aconteceu antes permanecer momentos a fio sob efeito de um livro recém-lido, imerso numa espécie de estado de graça intelectual. Sombras de Reis Barbudos é dessas obras que têm uma comunicação direta com o inconsciente. O consciente não capta o significado de todas as alegorias e símbolos que permeiam a narrativa enxuta e fluída, e nem precisa. Os acontecimentos descritos, bastante prosaicos em si, estão impregnados por uma realidade subjacente que parece uma sombra distorcida das coisas comuns que enxergamos.

Considerado o melhor romance de 1972, esse livro onírico, publicado no auge da Ditadura Militar, fala de uma cidadezinha rural dominada por uma misteriosa Companhia, que cercou o povoado de muros imensos e se dedica a impor esdrúxulas proibições e punições aos cidadãos atônitos. Quando miríades de urubus adejam o povoado e todos adquirem lunetas para vê-los, estas são proibidas, e posteriormente obsoletas, pois os urubus desceram e se tornaram bichos de estimação dos aldeões; quando pessoas aparecem voando, a Companhia prontamente proíbe que se erga os olhos ao céu para contemplá-las. A fim de evitar o risco de as pessoas sofrerem as conseqüências por se distraírem e acabar levantando a cabeça, Lucas, o garoto narrador, explica o que foi feito:

Contra esse perigo alguém inventou esse aparelho que vai intrigar muita gente amanhã, quando ele for encontrado em nossos porões ou desenterrado de monturos por aí. Como é que nossos netos ou bisnetos vão saber para que serviam esses blocos de madeira formados de duas partes unidas por dobradiça de um lado e fechadas com trinco de outro, tendo no meio um buraco da grossura de um pescoço, e numa das metades um espeto com a ponta inclinada para o centro? Será que alguém vai descobrir que isso é um aparelho que usávamos em volta do pescoço quando saíamos à rua, e que o espeto servia para cutucar a nuca quando a pessoa se distraía e erguia um pouco a cabeça?

Os “reis barbudos” são, naturalmente, os donos do poder, sua sombra é a opressão com que cobrem o povo; os urubus, as pessoas que voam, as chuvas ininterruptas, a queda de Tio Baltazar, fundador da Companhia e depois sua vítima, tudo isso se presta a exercícios de decifração, embora o livro não exija ser entendido, mas tão-somente sonhado.

13.12.07

Nietzsche justificando Dan Brown e Zíbia Gasparetto

Necessidade de maus escritores. — Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras. Se a vida humana fosse mais longa, o número de indivíduos amadurecidos seria maior ou, no mínimo, tão grande quanto o de imaturos; ocorre que a imensa maioria morre cedo demais, isto é, há sempre bem mais intelectos não desenvolvidos e com mau gosto. Além disso eles desejam, com a enorme veemência da juventude, a satisfação daquilo de que necessitam, e forçam o surgimento de maus escritores.



Fonte: Humano, Demasiado Humano

Reality show com glamour

Para a maioria dos marmanjos, um programa tão feminino como Brazil's Next Top Model é uma mera desculpa para ver mulheres bonitas. Não nego ser um deles, sobretudo porque abomino reality shows. Esse, no entanto, tem um propósito específico e bastante pragmático, ao contrário dos Big Brothers da vida: introduzir uma nova supermodelo brasileira no competitivo e anoréxico mercado internacional da moda.

Não assisti ao programa original norte-americano, do qual este é a versão brasileira. Quem viu, disse que o de lá conta com muito mais recursos: grande novidade. Só sei que o daqui, a despeito da simplicidade local, parece feito com doses razoáveis de profissionalismo e bom gosto. Ele é informativo na medida em que deixa claro não se tratar de um concurso de beleza, e a transformação física das jovens concorrentes ao longo dos episódios salta aos olhos. A modelo Fernanda Motta é uma apresentadora competente, e a consultora de moda Érica Palomino faz um papel parecido ao do jurado de programa de auditório que sempre desanca o calouro.

O pior do programa são as intervenções estilo reality show, a saber, supostas brigas, picuinhas e desabafos das jovens, flagradas por câmeras indiscretas nos dormitórios da casa onde elas vivem confinadas durante a competição, como se esta só tivesse graça se temperada por cenas de alcova. Também incomoda um pouco constatar quão impiedoso, quão nocivo o mercado da moda pode ser ao vermos moças lindas, esbeltas e saudáveis chamadas de "gordas" por não serem esqueléticas, ou de "feias" por não serem fotogênicas, ou mesmo de "velhas" por terem mais de dezenove anos.

22.11.07

Horroróscopo



Uma das melhores coisas que já recebi via internet.


O LADO NEGRO DO SEU SIGNO


Áries (21 de março a 20 de abril)

Você se acha muito honesto, íntegro, independente e poderoso. Bom, isso é o que você acha... Você adora mandar e botar tudo pra “ferver”, mas desde que seja do seu jeito, mesmo que seja na porrada. Você não consegue influenciar ninguém, apesar de ficar o tempo todo tentando exibir o seu poder. Os arianos são ótimos juízes, sogras e lutadores de jiu-jitsu.


Touro (21 de abril a 20 de maio)

Você tem muita determinação e trabalha como um condenado. A maioria das pessoas acha que você é um pão-duro e cabeça-dura: estão certas. Sua persistência faz de você um puta de um chato. Você é guloso, adora a natureza, o belo e ser amado. Taurinos são bons tri-atletas, vendedores de enciclopédias e decoradores.


Gêmeos (21 de maio a 20 de junho)

Você é comunicativo, curioso, bem humorado, inteligente e tem duas caras. Sua inconstância e preguiça fazem de você um manipulador de primeira. Você não liga para o que os outros sentem e adora distribuir chifres por aí. Geminianos costumam fazer muito sucesso na política, no circo, na novela das oito e pulando cerca.


Câncer (21 de junho a 21 de julho)

Você é solitário, defensivo e compreensivo com os problemas das outras pessoas, o que faz de você um xarope. Você se considera pé-frio e mal-amado. Sua compaixão, sensibilidade e emotividade fazem do homem de câncer uma tremenda de uma bichona. Os cancerianos são ótimos cabeleireiros, melhores amigas e leitores de romances água-com-açúcar. .
.Leão (22 de julho a 22 de agosto)

Você se considera um líder natural. Os outros acham você um idiota completo. Você é vaidoso, arrogante, orgulhoso e impaciente, como se fosse a última coca-cola gelada do deserto, e costuma lidar com críticas na base da porrada. Os leoninos são excelentes guardas de trânsito, ditadores e emergentes.


Virgem (23 de agosto a 22 de setembro)

Você é do tipo lógico, trabalhador, analítico, tímido e odeia desordem. Sua atitude detalhista e organizada é enjoativa para seus amigos e colegas de trabalho. Você é frio, não tem emoções e freqüentemente dorme enquanto está transando. Virginianos dão bons cobradores de ônibus, costureiras e montadores de quebra-cabeças.


Libra (23 de setembro a 22 de outubro)

Você é do tipo artístico, discreto, equilibrado e idealista, com muito gosto pelo harmonioso e esteticamente belo. Se você for homem, provavelmente é gay; se for mulher, tem queda para dondoca. Você sente necessidade de proteger os outros e lutar contra as injustiças, mas sempre esperando algo em troca. Os librianos são perfeitos na advocacia, arquitetura e gerenciando casas noturnas.


Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro)

Você é o pior de todos: desconfiado, vingativo, obsessivo, rancoroso, frio, orgulhoso, pessimista, malicioso, cínico, fofoqueiro e traiçoeiro nos negócios. Você é o perfeito filho da p..., só ama a sua mãe e a si mesmo. O escorpiano leva jeito para terrorista, nazista, dentista, fiscal da receita e juiz de futebol.


Sagitário (22 de novembro a 21 de dezembro)

Você é otimista, aventureiro, entusiástico e tem uma forte tendência a confiar na sorte. O que é necessário para quem é imprudente, exagerado, indisciplinado, irresponsável, infantil, sem concentração e limitado. Isso explica por que a maioria dos sagitarianos são bêbados. São ótimos garçons, jornalistas e bicheiros.


Capricórnio (22 de dezembro a 20 de janeiro)

Você é conservador, sério, frio e inflexível como uma baixela de inox. Sua fidelidade e paciência não encobrem seu lado materialista e avarento, mas quem se importa? Se a grana está entrando... Os capricornianos são um sucesso como bancários, banqueiros, agiotas ou simplesmente contando dinheiro em casa.


Aquário (21 de janeiro a 19 de fevereiro)

Você tem uma mente inventiva e dirigida para o progresso. Você mente e comete os mesmos erros repetidamente porque é imbecil e teimoso. Adora novelas, se reunir em grupos e ser fashion. Se você é homem... cuidado! Os aquarianos são ótimos sindicalistas e estilistas, às vezes, ambos ao mesmo tempo.


Peixes (20 de fevereiro a 20 de março)
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Você é do tipo sonhador, místico, sensível e costuma se doar muito. Se você é homem, as suas chances de ser gay são consideráveis. Você é cheio de conselhos fúteis e não faz nada além de encher o saco de todos que se aproximam de você. As piscianas dão boas apresentadoras de programa infantil e atrizes pornô.

13.11.07

Indomitamente diabólico

Nunca suportei Martinho Lutero (1483-1546). Não por ultramontanismo da minha parte, mas porque sempre o vi como um charlatão epilético e oportunista, cuja “reforma”, na verdade um mero cisma, só vingou porque um punhado de gananciosos nobres alemães do século XVI adotou-lhe as idéias a fim de poder saquear à vontade as propriedades da Igreja Católica em seus territórios. Afinal, um teólogo que escreve coisas do tipo “a religião dos príncipes é a religião dos súditos” e “o príncipe já é bispo por nascimento”, não pode ser menos que a coqueluche dos poderosos.

E também sanguinário: insuflou os camponeses da Suábia e depois chamou seus patrões príncipes para massacrá-los. Foi uma espécie de Henrique VIII alemão, com uns delírios de mais e uxoricídios de menos. Não por acaso odiavam-se os dois cismáticos, de tão parecidos que eram, inclusive fisicamente, na energia excessiva e algo desgovernada, bem como nos banhos de sangue que promoveram. O legado luterano representa o lado mais negro e abjeto do fundamentalismo cristão, tendo sido a verdadeira inspiração do nazismo e seu Holocausto.

Em suma, o monge renegado Lutero só foi menos criminoso que o pseudobispo Edir Macedo porque não roubava.

Pois bem, o belíssimo livro Lutero e a Igreja do Pecado acrescentou uma nova dimensão à imagem que eu fazia do agostiniano, tornando-a muito mais multifacetada -- ao contrário da imagem do pseudobispo citado, que sempre teve uma só faceta, a de estelionatário. O heresiarca alemão foi ao menos um fanático sincero -- coisa que nunca se poderá dizer do sectário carioca que comprou uma emissora de TV extorquindo pobres.

Não é de estranhar que o monge de Wittenberg odiasse a Igreja e o papa mais que tudo no mundo, pois decerto projetava neles a imagem de seus horríveis pais, um casal de camponeses supersticiosos e violentos que o surravam por qualquer coisa quando Martinho era criança. Ele tinha problemas mentais sérios, decorrentes ou não da epilepsia, e sofria de alucinações em que via o diabo até debaixo das unhas. Hoje seria diagnosticado como paranóide esquizofrênico, fatalmente destinado a terminar seus dias como presidente dos Estados Unidos da América.

Essa interessante tese biográfica defende, contudo, que a principal motivação de Lutero para a fundação do protestantismo não foi o amor a Cristo, e sim o horror ao diabo. Não é novidade para ninguém que tanto os protestantes históricos quanto os neopentecostais, além de idolatrarem um livro repleto de problemas de tradução, sempre deram muito mais valor ao capiroto que a Deus. Pois ambas as atitudes, segundo Lutero e a Igreja do Pecado, teriam sua gênese no próprio bibliólatra alemão. Prova de que as instituições são sombras prolongadas de seus fundadores.
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Interessante que o autor desse livro seja Fernando Jorge, escritor que apresenta diversas analogias com o alucinado de Wittenberg. Seu livro termina com a seguinte citação: “Ele tinha -- como devo dizer? -- algo original, incompreensível, miraculoso, tal como encontramos em todos os homens providenciais, algo aterradoramente ingênuo, simploriamente astuto, sublimemente limitado, indomitamente diabólico”.
Essas palavras com que Heinrich Heine descreveu Lutero, ajustam-se na verdade como uma luva a Fernando Jorge.
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Embora seja um dos nossos melhores biógrafos vivos, muitos se lembram dele apenas por seu impiedoso ataque ao “papa” do jornalismo brasileiro intitulado Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis, cuja enumeração incansável dos plágios e embustes sem conta daquele fabricante de factóides estendeu-se muito além das 95 teses que Lutero pregou na igreja de Wittenberg. Não contente com isso, Jorge vilipendiou a “Igreja” dos escritores, a sacrossanta Academia Brasileira de Letras, retratando-a como uma corporação de nestóreos e pouco letrados cortejadores do Poder, em seu hilário A Academia do Fardão e da Confusão.
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Jornalista, espinafrou o papa do jornalismo; escritor, enxovalhou a igreja das Letras: difícil ser mais luciferino que isso. Felizmente, ao invés de sangue, faz escorrer bile dos ridículos, dos apaniguados e dos soberbos. Fernando Jorge tem, definitivamente, algo de diabólico. Alguém já viu o “f” da assinatura dele? É idêntico a um tridente!

31.10.07

Porto Alegre em Cena - II





















Dois espetáculos de dança quase contrastantes: Kagemi e Boccatango. Dança butô e balé moderno, o milenar e o contemporâneo, o japonês e o argentino. O eterno e o efêmero.

As peças Família e A Pedra do Reino me levam à mesma reflexão do Porto Alegre em Cena do ano passado, quando Luís Melo interpretou Tchekov, não uma peça dele, que as tem tantas, e sim um conto de Tchekov. Por Melpômene, o que os diretores de teatro contemporâneos têm contra peças de teatro?
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Família é a versão teatral de um filme de Fernando Leon de Aranoa, e A Pedra é a adaptação de Antunes Filho para o romance de Ariano Suassuna. Resultado sofrível nos dois casos, como o seria, da mesma forma, um longa-metragem filmado não sobre um roteiro cinematográfico, mas a partir de uma partitura.


















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Compreendo a sede de experimentalismo cênico em países europeus, que conhecem suas peças clássicas de memória e não mais suportam vê-las de forma tradicional. Mas aqui não há memória, e tradicionais são apenas os vícios da classe política.



Teatro mesmo, autêntico, clássico, é Las Troyanas, do bom e velho Eurípedes. Não é a montagem mais cara e nem a mais bem dirigida, mas a única em que os termos "poesia" e "desempenho dramático" vêm à mente com alguma freqüência.



Por que os diretores não páram com seus experimentalismos, bons apenas para eles e para seus egos inflados, e não dão aos espectadores de teatro o que pertence aos espectadores de teatro?

Acredito que a raiz desse mal está na relutância em profissionalizar a arte cênica. Fazer um teatro dirigido ao público pagante, ou seja, um "teatro profissional", não é encarado como arte, e sim como comércio, ou prestação de serviço. Daí os diretores teatrais brasileiros insistirem no amadorismo, na experimentação, na encenação do próprio ego, o mais distante possível do texto para teatro. Afinal, se algum desses empirismos vazios e egocêntricos for bem-sucedido, o mérito recairá sobre o diretor, e não sobre algum grego morto há milênios.

15.9.07

Porto Alegre em Cena - I

Setembro começou com mais uma edição, a 14ª, do imperdível Porto Alegre em Cena, o maior e melhor festival de teatro deste pobre país cujos maiores histriões encontram-se não nos palcos, mas na política.



Não sei se alguém já utilizou o termo "teatro sensorial", mas mesmo que não tenha, o espetáculo alemão Big in Bombay, a que assisti na terça-feira, é exatamente isso. Na babel de povos e raças que habitavam a Roma antiga, os espetáculos cênicos preferidos eram as pantomimas, sem palavras para atrapalhar, tendência que se observa também no mundo globalizado de hoje. O texto teatral, tão importante para consolidação de idiomas nacionais, cede lugar à dança, a algaravias e esforços circenses. Big in Bombay é tudo isso, somado a um irresistível nonsense que jamais nos permite antever a próxima cena. A caótica cena final dá o tom do que foram todas as anteriores: o elenco fechado numa redoma de vidro, todos lutando contra todos enquanto chuva cai torrencialmente apenas dentro da redoma, e em cima dela uma mulher com a cabeça coberta por um saco, dando machadadas a esmo. Imaginem A Cantora Careca, de Ionesco, adaptado como musical da Broadway por um indiano, e terão uma idéia apenas aproximada do que é Big in Bombay.




Quarta-feira foi a vez de Fernando e Isaura, a versão de Ariano Suassuna para o mito romântico de Tristão e Isolda. Montagem impecável, aproveitamento de recursos cênicos prodigioso. Uma pessoa com uma vela na cabeça convence-nos que é um navio, duas pessoas segurando ramos formam bosques perfeitos.




Em termos de desempenho dramático, nada pode ser comparado à peça de quinta-feira, El Camino para la Meca, com a atriz urugaia China Zorrilla, que encantou o público brasileiro como a velhinha apaixonada pela vida do filme Elsa e Fred. A veterana de 85 anos carrega o espetáculo nas suas costas encurvadas, com uma vitalidade de causar vergonha em tipinhos cansados como eu, que não tenho nem metade da idade dela. O público porto-alegrense não é como o do resto do Brasil, que gosta de ficar aplaudindo o tempo todo, mas os gaúchos não se contiveram e aplaudiram a diva no clímax da peça, quando ela arrebatou toda a platéia do Teatro São Pedro com o gesto singelo de deixar cair uma caneta. O resto do elenco, um senhor e uma bela balzaquiana, estão à altura dessa lição de vida ambulante que é China Zorrilla.

26.8.07

Primavera para Hitler

Não acho Mel Brooks extremamente engraçado. Seus filmes sempre me arrancaram mais sorrisos que gargalhadas, e seu grosseiro humor judaico totalmente isento de sutileza meio que me repugna. Nunca neguei, no entanto, a inteligência de suas sátiras, e o brilhantismo de suas idéias, das quais a melhor de todas foi, indiscutivelmente, a que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro original, pelo filme The Producers, de 1968. No discurso da premiação, Brooks fez questão de reproduzir o que seu coração lhe dizia: "Bpomp... bpomp... bpomp".

A idéia de The Producers não poderia ser mais inteligente: decididos a dar um golpe em seus investidores produzindo o maior fracasso comercial da história do show business, um produtor fracassado da Broadway e um contador neurótico montam um musical chamado Primavera para Hitler — espécie de apologia ao monstro do século XX escrita por um nazista enlouquecido e dirigida por uma bicha louca — crentes de que o espetáculo ofenderá a todos os credos e raças em plena Jew York do pós-guerra. Mas o espetáculo carnavalesco, contra todos os prognósticos possíveis, resulta num retumbante sucesso, e os dois escroques vão parar na cadeia. "Escolhemos a pior peça, o pior diretor e o pior elenco... no que foi que acertamos?!"

O roteiro premiado foi transformado em musical premiado, o qual foi adaptado para o cinema com seus astros principais, Nathan Lane e Matthew Broderick, em 2005. A mão pesada de Brooks é substituída pela leveza de uma diretora, e Nathan Lane faz um Max Bialistock bonachão, menos grotesco que o de Zero Mostel.

Há uma lógica um pouco equivocada na brilhante idéia de Brooks. Uma narrativa que ofende muitas pessoas não é necessariamente um fracasso comercial; o famigerado Código da Vinci está aí para provar que, pelo contrário, pode render muitos milhões. Além do mais, por que um musical com canções belíssimas, ótimos intérpretes, bailarinas sensuais e números de dança otimamente coreografados, seria um fracasso?

Meu entusiasmo com a notícia de que o musical Os Produtores será montado em São Paulo murchou quando soube que a direção e o papel principal caberão ao rei do besteirol Miguel Falabella. O resto do elenco tampouco me empolga. A quase mulata Juliana Paes fará o papel da sueca Ulla, a loura burra da peça, e Leopold Bloom, o esquizofrênico contador com medo de mulheres, será interpretado por um obscuro galãzinho de telenovela. Alguém merece?

22.7.07

Realismo fantástico não é para Hollywood

Will Ferrell, em Mais Estranho que a Ficção
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O gênero dramático da fantasia é perfeitamente compatível com a comédia, mas o do realismo fantástico, nem tanto. Por ignorar isso, Hollywood tem feito incursões desastrosas nesse gênero tornado célebre por Gabriel Garcia Marquez e Jorge Luis Borges.

A última foi o filme Mais Estranho que a Ficção, em que um funcionário público escravo de hábitos descobre ser um personagem literário destinado por sua autora a morrer de modo trágico. Ele procura a escritora e tenta reverter seu "destino", quando então o conflito da trama se torna um problema estético: o personagem trágico deve morrer, esse é um dos principais dogmas da arte dramática. Por outro lado, o personagem vivo, ante a iminência da morte, está redescobrindo a vida, até arrumou uma namorada e está aprendendo a tocar guitarra, ou seja, anseia por viver. O que vai ser, tragédia ou comédia? Sendo uma comédia, o filme só poderia ter um final de comédia, lógico. Acontece que no realismo fantástico nada é lógico. Uma solução melhor para o conflito seria que, ao invés de o personagem simplesmente continuar vivo porque o filme é uma comédia, a escritora morresse para que o personagem vivesse. Mas Hollywood não se aventura muito além do óbvio.

Outra dessas incursões, anos atrás, foi outro filme erroneamente concebido como comédia, o Feitiço do Tempo, em que um homem chato começa a despertar sempre no mesmo dia, não importa o que faça. Angustiado por essa estagnação temporal, ele chega a tentar o suicídio várias vezes, só para romper a aparente maldição, sem sucesso. Ele então resolve se tornar uma pessoa melhor, o que por fim desmancha o "feitiço". Se Hollywood tivesse ido mais fundo na psique do personagem, ele teria se tornado um assassino, protegido pela impunidade de não haver um dia seguinte.
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Idéias ótimas arruinadas em comédias, simplesmente porque Hollywood não conhece a diferença entre fantasia e realismo fantástico, ou porque não consegue levar este a sério.

20.7.07

O dia em que o Brasil ficou livre de ACM

A data de hoje deveria ser um feriado nacional, dia de festa e regozijo, mas até na morte esse monte de banha e prepotência que atendia pelo nome de Antônio Carlos Merdalhães fez uso de seu oportunismo atávico e orgânica desonestidade. Morrendo apenas dois dias depois da trágica queda do avião da TAM em São Paulo com quase duzentas vítimas, quem ousará demonstrar alegria ante o desaparecimento de um dos piores símbolos da rapina e do primitivismo sócio-econômico-político que assolam esta pobre ex-colônia há cinco séculos?

8.7.07

Impropério Romano

Cleópatra não era tão vagabunda, nem tampouco Otávia, que nunca deu para o Agripa, muito menos Ácia, que jamais deu para Marco Antônio, o qual portanto não foi expulso de Roma por comer a mãe de Otaviano, que por sua vez não estava em Roma quando Júlio César foi morto no teatro de Pompeu, não no Senado, por Bruto, que não vivia com a mãe, Servília, a qual não odiava César tanto assim, na cidade em que os cidadãos não se tratavam por “cidadão”, onde os judeus ainda não chamavam seu deus de Hashem, pela qual o rei deles, Herodes, não desfilou vestido como sátrapa otomano, e para onde Cesárion, filho de Cleópatra, não retornou vivo do Egito.

Apontar as inúmeras inexatidões históricas da excelente série Roma, da HBO/BBC, pode ser tanto teste de conhecimentos quanto exercício de pedantismo, mas estimula a pertinente discussão dos limites da ficção e da História na ficção histórica. Qual a vantagem de despender milhões de dólares para recriar uma época nos mínimos detalhes e, ao mesmo tempo, falsear os fatos ocorridos nessa época para fins dramáticos?

Com as devidas diferenças, Shakespeare fez o mesmo, a ponto de Churchill ter declarado que aprendera história da Inglaterra através das peças do Bardo. Ou seja, Churchill não aprendeu história da Inglaterra com Shakespeare; ele aprendeu Shakespeare, com a história da Inglaterra como pretexto.

Da mesma forma, Roma realiza uma recriação de época das mais realistas, para veicular uma peça de ficção; personagens verídicos e fatos históricos servem de mero suporte para dar credibilidade à imaginação dos roteiristas. O propósito não é ensinar História na TV; para isso estão aí os documentários. O propósito é tão-somente divertir, e a credibilidade mencionada garante que esse divertimento seja de um nível mais elevado que outras obras de teledramaturgia, como novelas e enlatados.

Para alguns, Roma reproduz impecavelmente o espírito da época, que seria mais importante que o rigor dos fatos. Por exemplo, sabemos que Augusto tentou, sem muito sucesso, implantar medidas moralizantes no hedonista povo romano, semelhantes aos atuais apelos do Vaticano para que os católicos europeus tenham filhos. A série pretende que o moralismo de Augusto teria origem na sua repulsa pela conduta imoral da mãe, e não na sua visão de estadista de que toda nação forte é conservadora (embora nem toda nação conservadora seja forte). O Bruto da TV mata César por instigação da mãe, embora o dos livros fosse casado. Segundo essa vertente, o mundo ocidental tornou-se o que é porque seus artífices não sabiam dizer “não” às suas mamães.


Destarte, a ficção histórica quer transformar conflitos históricos em pessoais, como forma de aproximar a História das pessoas que não a fazem. Tanto isso é verdade, que pessoas que fazem História preferem-na à ficção histórica; Napoleão devorava Plutarco e desprezava as peças históricas de Voltaire. Pois toda ficção requer imaginação para ser apreciada, e os que governam os destinos dos homens não podem dar-se ao luxo de ter imaginação, a qual, mesclada ao poder, sempre degenera em loucura, Nero e Heliogábalo que o digam.

25.6.07

Nefertiti para crente

Quando o rei Aquenaton, que governou o Egito por mais de uma década do século XIV a.C., foi identificado pela primeira geração de egiptólogos que o estudou, no começo do século XX, como o "primeiro monoteísta da História", os fundamentalistas judeus e cristãos torceram o nariz ante a possibilidade de o Deus Único de seus livros sagrados ter sido invenção de um faraó. Uma cruzada difamatória foi, destarte, mobilizada contra esse personagem, a quem chamaram, e chamam ainda, de louco, tirânico, incestuoso, homossexual. Esta última acusação, absurda como todas as demais, surgiu ante a evidência de um baixo-relevo em que Aquenaton é retratado acariciando amorosamente um co-regente de nome Smenca-Rá. Estudos mais criteriosos revelaram que Smenca-Rá, na verdade, era outro título para a esposa do rei, a famosa Nefertiti. Tal foi o único fato histórico que a escritora Jacqueline Dauxois juntou às mencionadas calúnias em seu romance Nefertite. Feito para agradar aos fundamentalistas, esse livro tolo apresenta cada episódio do Êxodo como verdadeiro, inclusive Moisés boiando num cesto quando bebê e as pragas do Egito, coroando-os com o supremo disparate, sugerido pela autora, de que Nefertiti seria o tal faraó que perseguiu os hebreus por um corredor aberto no mar Vermelho e acabou tragado pelas águas junto com seu exército, graças à divina intercessão de Hollywood. Mais épico que qualquer livro ou filme é a falta de senso crítico de Dauxois, inacreditável mesmo para uma crente.

11.6.07

Livro de mulherzinha

O romance A Casa das Sete Mulheres foi praticamente concebido para virar minissérie da Globo, tendo, de fato, sido publicado pouquíssimo antes que sua adaptação para a TV, em 2003, fosse ao ar. Antes desse livro, a autora gaúcha Leticia Wierzchowski era conhecida apenas pelo pujante conquanto limitado mercado editorial sulino. Segundo a informação oficial, a editora Record, uma das maiores do país, teria se interessado por um outro livro da autora e, ao conhecer seu projeto literário sobre a Revolução Farroupilha, resolveu bancá-lo sem pestanejar. O que se sabe é que a própria editora ofereceu a idéia da adaptação à Globo, que soube enxergar numa história com tantas saias e corpetes um produto feito sob medida para o público feminino consumidor de suas ridículas novelas.

Dito e feito: a minissérie sobre as mulheres que, enclausuradas numa estância no Rio Grande do Sul, na primeira metade do século XIX, assistem de longe à Guerra dos Farrapos, a mais longa, sangrenta e inútil da nossa História, foi um sucesso, embora o critério para escolha do elenco tenha sido a beleza e não o talento, como sempre se deve esperar do diretor de novelas Jayme Monjardim, um diretor de fotografia sem a mais remota noção de como dirigir atores. O grande mérito dessa adaptação mediana coube à música de Marcus Viana e ao talento dramatúrgico da roteirista Maria Adelaide Amaral, que parece talhada para adaptar livros chatos, como já fizera de forma igualmente bem-sucedida com A Muralha, romance virtualmente ilegível de Dinah Silveira de Queiroz.

Sim, porque o romance de Wierzchowski é chato num grau tão épico quanto o seu tema. Com estilo tosco, diálogos banais e didatismo explícito, A Casa das Sete Mulheres parece um livro feito para ensinar história do Rio Grande do Sul a mocinhas casadouras gaúchas da década de 30. Conflitos praticamente inexistem, não só porque as mulheres da família de Bento Gonçalves, o líder farroupilha, são todas belas, inteligentes, fortes, amam-se e vivem na mais perfeita harmonia (ao contrário das demais famílias da face da Terra), mas também porque não passam de nomes, personagens sem personalidade, sem psicologia, sem particularidades, sem idiossincrasias, tão-somente com descrições físicas infantis, do tipo “linda como uma princesa”, “de cabelos negros que brilhavam ao sol”, “seus olhos verdes cintilavam uma luz que dava mágica ao seu rosto”, ou “usava um vestido amarelo, com peito de rendas, que lhe acentuava a graça”. Um livro para mulherzinhas, sem o talento e a vivacidade das Mulherzinhas de Louisa May Alcott.
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Coube a Adelaide Amaral tecer tramas paralelas, dar dimensão aos personagens e criar conflitos entre eles, para a TV. Os milhares de telespectadores que, regalados com a bela fotografia e a envolvente trilha sonora da minissérie, ou mininovela, da Globo, procuraram no livro a matriz desta, decerto tornaram-se leitores decepcionados, pois, com exceção da pletora de nomes de pessoas e logradouros, nada há em comum entre o romance enfadonho de Wierzchowski e o roteiro melodramático de Amaral.

30.5.07

A beleza da destruição













O filme V de Vingança, de 2005, é um filme diferente dos outros, e como Hollywood raramente muda, essa característica por si só o torna polêmico. Subversivo, na mais ampla acepção da palavra: perplexidade ainda maior, em se tratando da politicamente conservadora Hollywood.

Os produtores são os mesmos da trilogia Matrix, em que os elementos da subversão e da transgressão estão bem presentes. Mas essa trilogia, apesar da ótima história, edifica-se mais sobre efeitos especiais espetaculares, tornando-se um inofensivo e caseiro cinema espetáculo com estética de videogame. V de Vingança tem efeitos também, mas muito menos, e corajosamente apóia-se na consistência da sua mensagem. E sua mensagem de mobilização contra o totalitarismo não poderia ser mais pertinente hoje, em que assistimos com certa inquietação à guinada que o mundo está dando para a extrema direita.

A história, basicamente, é a de um mascarado que, numa Inglaterra totalitarista do futuro, quer explodir o tirânico Parlamento. V incomoda, logo de cara, por confundir o maniqueísmo ao qual os filmes norte-americanos nos acostumaram. Embora se pareça a uma mistura de Zorro e Fantasma da Ópera, o mascarado V procura evocar a figura do subversivo católico Guy Fawkes, que em 1605 tentou sem sucesso explodir o Parlamento britânico, em represália à opressão deste contra os católicos.

Ora, o Parlamento britânico não é atualmente um símbolo de tirania, e a maior parte de nós gostaria de visitá-lo ao invés de destruí-lo. No entanto, a Alemanha tampouco era totalitária pouco antes da ascensão nazista, e a conivência do premiê Blair na criminosa e ilegal invasão do Iraque de 2003 (contra a vontade do povo britânico que o elegeu) demonstra que a Inglaterra, com uma monarquia decadente e um povo deploravelmente burguês, cuja maior diversão é ler tablóides sensacionalistas, não está suficientemente protegida contra governos ditatoriais.

Curiosamente, o filme, que condena o ódio às diferenças (o homossexual Stephen Fry faz o único papel que sabe, o de "veado cool”), foi atacado por ser diferente. Críticos tacanhos e imbecis rotularam-no de apologia ao terrorismo e coisas do tipo, como se ele endossasse atos semelhantes ao do 11 de setembro. Por outro lado, o filme parece aludir a esse atentado de forma mais sutil: um desastre biológico, que dizima boa parte da população britânica, é atribuído pelo governo ultraconservador a minorias dissidentes, quando na verdade foi encomendado pela própria chancelaria do premiê. É impossível não enxergar aí a teoria, assaz plausível, de que o atentado às Torres Gêmeas em Nova York foi “encomendada” pelo governo neofascista de George W. Bush, cuja família, aliás, possui estreitos laços com a de Osama Bin Laden.

O canastrão Hugo Weaving, que interpreta o chato agente Smith na trilogia Matrix, encontra em V o seu melhor papel, pela simples razão de que não podemos ver-lhe as caretas. O rosto deformado do personagem nunca é revelado, pois, como sua aprendiz sentencia no final, “V é você, sou eu, somos todos nós”. Essa aprendiz é interpretada com a usual competência pela gostosinha Natalie Portman, embora, como toda atriz norte-americana, ela seja incapaz de imitar o sotaque britânico de forma satisfatória.

27.5.07

Brutus ou Bruto?

A exibição da excelente série televisiva britânica Roma tem fornecido novos pretextos para que a influência excessiva do idioma inglês cause ainda mais estragos no nosso. À força de ouvir e ler nomes latinos pronunciados na sua forma arcaica, muitos brasileiros são levados a crer que essa forma é mais fiel do que sua forma moderna, ou seja, “Titus Pullo” ao invés de “Tito Pulo”, “Cassius” ao invés de “Cássio”, “Brutus” ao invés de “Bruto”, etc. Mas arcaico não quer dizer, necessariamente, fiel.


Na verdade, essa forma arcaica do latim é adequada apenas para uso dos idiomas não-latinos, como o inglês, pois em todos os idiomas neolatinos, isto é, oriundos do latim, houve uma evolução que precisa ser observada. Assim, o antigo “Claudius” tornou-se, em português e em espanhol, “Cláudio”, em italiano, “Claudio”, e em francês, “Claude”. Alegar que, em português, “Tiberius” e “Tarentum” são formas mais fiéis ao latim original do que “Tibério” e “Tarento”, é o mesmo que alegar que “Philippe da Hespanha” e “pharmacya” são mais fiéis ao português original do que “Filipe da Espanha” e “farmácia”.

26.3.07

O Príncipe e a Coroa

Já sabiam os antigos que uma narrativa singela, como uma fábula ou parábola, pode conter mais sabedoria que um tratado. Em seu filme Basquiat Julian Schnabel põe na boca do atormentado pintor neo-expressionista, morto de overdose aos vinte e sete anos, esta pérola que tão bem sintetiza a angústia criativa.

Minha mãe contou-me essa história. Ou foi um sonho?...

Havia um pequeno príncipe com uma coroa mágica. Um feiticeiro maligno raptou-o, encarcerou-o em uma cela numa torre enorme, e retirou-lhe a voz. Havia uma janela protegida por barras.

O príncipe aprisionado golpeava a cabeça contra as barras, na esperança de que alguém ouvisse o barulho e o encontrasse. A coroa produzia o som mais belo que alguém já ouvira. Podia-se ouvir o repique a quilômetros. Era tão lindo que as pessoas queriam agarrar o ar.

Nunca encontraram o príncipe. Ele nunca saiu da cela. Mas o som que ele fazia enchia tudo com beleza.

video

24.2.07

Fatalidade é o Deus de Babel

É meio discutível a mensagem que o filme Babel procura transmitir. A sucessão de tragédias nos quatro cantos do mundo, todas relacionadas, resulta de mera fatalidade. Ninguém é mau; é como se o mal tivesse existência própria e os seres humanos fossem seus propagadores involuntários. O gentil chinês que dá a arma a um guia, na África, o faz por amizade e gratidão; este, que vende a arma ao pai dos meninos, também é um bom homem, segundo o próprio chinês. O pai dos meninos, um honesto pastor de cabras no Marrocos, entrega a arma aos filhos, cujas idades não somam mais de 16 anos, para que matem os daninhos chacais; quando eles disparam contra um ônibus de turistas, atingindo uma norte-americana, só queriam testar o alcance das balas. A babá dos filhos dessa mulher só os leva ao México ilegalmente para poder assistir ao casamento do filho, e o sobrinho dela abandona as crianças no deserto da fronteira por medo da polícia norte-americana truculenta e racista. Talvez seja essa a causa da sensação que nos acomete, ao cabo do filme, de que falta alguma coisa. Sabemos que pessoas mal-intencionadas existem, ao contrário do que o filme pretende postular. Concordo, o mal está presente na ignorância do pastor que põe um um rifle na mãos de um garoto de oito anos; mas a verdade é que pastores armados no Marrocos não são raridade, que o contrabando de armas é a mais prejudicial das formas de comércio, e que as pessoas envolvidas nele sabem muito bem que essas armas serão usadas para matar seres humanos, não chacais. Qual é, portanto, o propósito de relativizar a maldade humana a ponto de negar-lhe a própria existência? No caso do filme Babel, a intenção parece ser a negação radical do maniqueísmo de Hollywood, e o convite a uma compreensão maior entre o Primeiro Mundo e o Terceiro, cuja miséria e atraso ocasionam os problemas que reverberam no Primeiro. Mas duvido que a constatação de que "a tragédia pode visitar a qualquer um de nós porque todos somos irmãos" faça muito para ajudar a erradicar a especulação financeira sobre a morte alheia praticada por uma família Bush, ou a conquista de poder via terror fundamentalista no estilo de um Osama Bin Laden. A propósito, como Babel retrataria esses dois indivíduos tão nocivos? Como homens bem-intencionados levados pela fatalidade a promover chacinas à sua revelia?

23.2.07

Quando Admond chorou

Encontrei hoje, após anos de busca, o livro When Nietzsche Wept, de Irvin Yalom. Eu o dera de presente ao meu saudoso amigo Admond Ben Meir, o Filósofo Virtual, no aniversário dele, 16 de junho de 98. Escrevi a seguinte dedicatória:
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When Nietzsche wept, my dearest friend, the Virtual Philosopher, told him: "Don't weep, Friedrich. It is no dishonour to be second best after me." Happy Birthday!
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Quando Admond morreu no ano seguinte, sua mãe me vendeu por preço de mãe quase todos os livros dele, que compõem o núcleo da minha biblioteca hoje, e o livro do Yalom veio de novo parar nas minhas mãos. Na última página, meu amigo havia escrito sua opinião sobre o livro:
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Inteligente, superbem construído, diálogos instigantes, conhecimento de causa... Fantástico!
23/7/98 - quinta-feira.
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Só então li o livro, e escrevi o seguinte comentário, logo abaixo do comentário dele:Faço minhas as palavras do meu amigo Admond, a quem presenteei este livro, tomado de volta após a sua morte, em 1999. Minha única crítica: a fácil resolução do problema de Breuer, recorrendo apenas a uma sessão de hipnose, que resultou miraculosa... e muito improvável.
Domingo, 13/10/2002.


Percebi o quanto em comum tinham Nietzsche e o Filósofo Virtual, além da genialidade e, claro, dos pendores filosóficos. Ambos passaram a vida inteira doentes, padecendo as dores da limitação física e da inteligência superior, morreram antes do seu tempo e pagaram um preço alto demais pelo gênio.

Eu ia colocar aqui uma foto do Admond que eu tinha (essa aí em cima é do Nietzsche, em 1899, pouco antes de morrer), mas guardei-a dentro de um livro, crente de que o meu amigo apreciaria a boa companhia. Ironicamente, esqueci qual era o livro.
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Por onde você anda, fratello?

12.2.07

Deixaram Ricardo Ramos de fora

Nesta madrugada iniciei a leitura, com sete anos de atraso, da coletânea Os Cem melhores Contos Brasileiros do Século. Século XX, bem-entendido. Já me deliciei com Porque Lulu Bergantim Não Atravessou o Rubicão, de José Cândido de Carvalho, já me comovi com A Nova Dimensão do Escritor Jeffrey Curtain, de Marina Colasanti, e já me decepcionei com A Balada do Falso Messias, de Moacyr Scliar. Foi muito comentada a ausência de Guimarães Rosa, decorrente de problemas de direito autoral. Estranhei, mas não lamentei, a ausência dos auto-intitulados "Trangressores da Geração 90", a saber, Marcelo Mirisola, Nelson de Oliveira e outros. Desses, só André Sant'Anna foi incluído. Mas uma ausência é injustificável: a de Ricardo Ramos, filho de Graciliano e um dos melhores escritores deste país. A antologia, organizada por um acadêmico qualquer, traz nada menos que cinco contos do superestimado Rubem Fonseca, e nenhum do subestimado Ricardo Ramos, autor do romance As Fúrias Invisíveis e do livro de contos Toada para Surdos, fonte da citação a seguir:

O espelho mostra os olhos, na órbita dos óculos, e as bolsas que debaixo deles se arredondam, meias-luas empapuçadas, com estrias, como se em relevo sobre o rosto cavado pesassem, repuxassem os dois globos nadando em baço líquido, o esquerdo mais lacrimoso a um canto, o direito um pouco mais estreito, ou contraído, essa diminuição que não é de perceber-se logo, deve-se firmar a vista para notá-la, o que nem sempre acontece pois a visão também se encolheu, desfocada, daí a sensação de um rosto a fazer mira, de tocaia no instante do tiro, enquanto vêm mais à tona o cinzento dos aros, o opaco das lentes, porque os olhos são por trás e afundam, uma vaga lembrança do que foram mostra o espelho. Mas não o que tanto viram para se cansar tão depressa.

9.2.07

Pot-pourri






Lulla e a primeira-drama diante da prioridade dele na presidência.





Leio na Folha que a educação do Brasil teve uma piora drástica no ensino médio e fundamental. Nada mais coerente num país que elegeu, e recentemente reelegeu presidente da República um apedeuta. Alguém imagina um povo de Primeiro Mundo, ultra-democrático, socialista até, escolhendo para chefe de Estado um semi-analfabeto? Os franceses aplaudem o Lulla, mas nunca elegeram um ignorante presidente ou premiê. Idiotas sim, ignorantes não. A ironia disso é que o Lulla, como brilhantemente observou Carlos Vereza, é uma invenção da USP, da UNICAMP e das comunidades eclesiais de base.


G




A exibição do documentário A Verdade sobre o Opus Dei pelo The History Channel (por que não pode chamar-se aqui Canal de História, como em Portugal?) levou-me à constatação de que sigilo em movimentos religiosos transforma-os em seitas aos olhos do público. Os templários e os jesuítas, em suas épocas de expansão, sofreram as mesmas calúnias hoje lançadas contra os discípulos de São Josemaría Escrivá: conciliábulos secretos, enriquecimento suspeito, manipulação de governos, aliciamento de fiéis. Nada de novo sob a chuva, como diriam os ingleses.


G


A feiosa porém atlética Franka Potente faz jus ao nome e sobrenome em Corra Lola Corra, talvez o melhor do cinema alemão contemporâneo. É ela mesma que corre durante o filme inteiro, nada de dublês nem cenas reaproveitadas.

Fico assistindo a filmes reprisados enquanto não entra em cartaz Satori Uso, o documentário do meu amigo Grota sobre o esquivo poeta japonês que viveu no Brasil na década de 50 e foi amigo de Jack Kerouac. O fato de ele nunca ter existido é um detalhe mesquinho. As pessoas que mais vale a pena conhecer nunca existiram.

7.2.07

Rainha Helena

A despeito do título, A Rainha (2006), de Stephen Frears, não pretende ser uma cinebiografia de Elizabeth II da Inglaterra, mas tão-somente uma reflexão sobre a inadequação de uma monarquia em um país de governo republicano. Helen Mirren, não só uma das maiores atrizes vivas, como também repleta de rainhas inglesas no currículo (incluindo Elisabete I), interpreta nada menos que perfeitamente a pouco carismática e conscienciosa titular atual do Palácio de Buckingham, entronizada numa época em que monarcas eram ainda tão taken for granted que não se sentiam na obrigação de dar satisfação a quem quer que fosse, muito menos ao povo. Diferente de hoje, em que a família real é obrigada a merecer, de alguma forma, os 40 milhões de libras que custa ao contribuinte inglês, embora Elizabeth inicialmente não se tenha dado conta disso, quando, em 1997, chocou o povo britânico com sua indiferença diante da morte trágica de sua odiada e carismática ex-nora, Lady Diana, que tantos problemas e escândalos havia feito chover sobre a debilitada herança de Guilherme o Conquistador.

O filme tem início com a eleição do primeiro-ministro Tony Blair (muito bem defendido pelo efeminado Michael Sheen, que imita à perfeição o sorriso afetado do premiê), para contrariedade de Elizabeth, que obviamente preferia um conservador. Com a morte de Diana, então divorciada do príncipe Charles, e a recusa da família real em outorgar-lhe honras fúnebres principescas, ou mesmo de fazer um espetáculo público da dor que não sentia absolutamente, Blair vê-se com uma crise monárquica nas mãos. Embora socialista, percebe de imediato que sua sobrevivência política depende da sobrevivência da monarquia decrépita que o seu gabinete recém-empossado representa.

Em alguns momentos o filme parece reverente demais, já que quase todos os personagens estão vivos, mas não faltam críticas ácidas ao anacronismo e insensibilidade dos Windsors. Charles é retratado como o que de fato é, um patético homem de meia-idade cuja vida consiste em esperar pela morte da mãe. Pior ainda é o príncipe-consorte Philip, nada além de um velho reacionário que só pensa em caçar. Em A Rainha Diana não é santificada como o foi pelo populacho inglês; é apenas uma memória, com direito a várias imagens de arquivo, que assombra a família real depois de morta tanto quanto a atormentou em vida. Nem Blair, a força modernizante da história, é poupado, quando Elizabeth, no fim do filme, sentencia que um dia ele também será odiado pelo povo britânico, como de fato foi, ao tornar-se lacaio do criminoso George W. Bush na invasão do Iraque.

O único momento poético do filme fica por conta do cervo imperial, no qual Elizabeth vê a si própria, que acaba caçado e decapitado, para rara consternação dessa mulher que suprimiu seus sentimentos à força de reprimi-los. De resto, A Rainha faz jus à própria Elizabeth: frio, competente, ocasionalmente justo, sem sal e cujo poder reside apenas na imagem.