25.10.08

Outubro dos Paulos

Os lançamentos de autores nacionais da Geração Editorial neste mês foram todos escritos por Paulos: Suicídio, de Paula Fontenelle, As Maluquices do Imperador, de Paulo Setúbal, e Jack, o Estripador, do humilde mantenedor deste blogue. Recomendo esses três livros paulinos.


Ela estava de férias em Miami quando recebeu a ligação da irmã informando que o pai tinha se matado com um tiro na cabeça. Antecipar a volta representou uma nova fase. A jornalista Paula Fontenelle queria saber o por que e não mediu esforços. “O que leva alguém a tirar a própria vida? Este ato, pode ou não ser prevenido?” Na busca por explicações, Paula voltou à infância para resgatar o passado do pai. Conta detalhadamente das dificuldades dele, do medo de falhar, da forma rígida de ser, agir, das fragilidades e dos sentimentos recolhidos que ele transportava para o alcoolismo, como um refúgio. Em Suicídio - O Futuro Interrompido há histórias, relatos de quem esteve à beira de cometer o ato, pesquisa e um alerta com informações sobre prevenção.



“Foi numa noite de gala, aniversário do príncipe regente, que D. Pedro viu no palco, pela primeira vez, a bailarina entontecedora. Era uma francesinha de matar. Uma boneca de luxo, toda pluma, frágil como um bibelô. E tão loira! E tão fresca! E dona duns olhos tão grandes, tão liricamente azuis!” O trecho fala do primeiro amor de D. Pedro, quando, aos 17 anos, teve a primeira loucura da adolescência e aventurou-se na paixão por Noemi. Em todos os capítulos as histórias da família real são contadas em detalhes, rico vocabulário e com muito humor.



O que torna Jack mais interessante que todos os outros assassinos seriais é o fato de nunca ter sido preso e de não termos idéia de quem ele foi, nem por que cometeu seus atrozes assassinatos. Ele é uma sombra, um enorme ponto de interrogação traçado com sangue. O Estripador se transformou em lenda porque os mitos brotam das lacunas deixadas pela História. Tentar adivinhar a identidade do criminoso de Whitechapel ainda é a principal pergunta ou mistério policial da atualidade.
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Mais detalhes na página da Geração.

13.10.08

Alice no país da suruba e do amadorismo

No tempo em que morei na ultraprovinciana Londrina — período que costumo denominar minha Idade das Trevas pessoal — fui levado a participar dum desses chamados encontros de casais, em que casais ouvem outros casais falarem sobre como é estar casado. Sendo o abominável evento promovido por uma paróquia, não me surpreendeu sua péssima organização; o que sim me surpreendeu foi tamanha desorganização ser deliberada e não acidental. Segundo um dos (des)organizadores, pessoas que já conheciam bem este ou aquele ofício no evento não eram reaproveitadas na mesma ocupação a fim de evitar que se tornassem “profissionais”, o que supostamente prejudicaria o seu “espírito de entrega”, ou algum outro clichê católico de que, por estar afastado, graças a Deus, da religião, não me recordo agora.

Em outras palavras, o amadorismo seria uma coisa mais agradável a Deus que o profissionalismo. Não admira Ele ser brasileiro.

Esse mesmo espírito retrógrado predomina até nas modernas telecomunicações do Brasil, como demonstra a baixíssima qualidade de Alice, a nova série brasileira da HBO — pronunciada êitch-bi-ou pelos macaquinhos daqui em vez de agá-bê-ó —, que está desembolsando nada menos que um milhão por episódio dessa produção, cujos quadros são todos ocupados por amadores, a começar pelo elenco. Alice trata de uma garota do interior que vem a São Paulo e se deslumbra com este suposto “país das maravilhas”, dando a entender que o propósito oculto (mas nem tanto) da série é incentivar o turismo sexual na megalópole, assim como a igualmente execrável Mandrake (também da HBO) parecia ser um cartão-postal do Rio de Janeiro como paraíso de popozudas desfrutáveis.

A forma que o amadorismo autoral de Alice encontrou de tornar São Paulo a nova Cidade Maravilhosa foi transformar as paulistas em cariocas, ou no que as cariocas são para a mídia: libertinas. A tia de Alice é lésbica e maconheira, suas amigas e vizinhas são promíscuas, sua circunspeta chefe transa com o motorista paraguaio dentro do carro, Alice mal chega a Sampa e já começa a enfeitar a testa do noivo que ficou para trás, em Palmas, durante rodadas de sexo casual com sujeitos que mal conhece. “Venha para São Paulo e você vai sair da secura”, é o que esse programa de quinta categoria parece apregoar.

Os produtores se orgulham de não ter ocupado pessoas famosas no elenco; poderiam ter feito uma concessão aos atores de talento. Para o diretor, os intérpretes de Alice, por serem estreantes, são mais “intensos”. Eles são mesmo intensamente ruins, inclusive a protagonista, Andréia Horta, escolhida exclusivamente por ser o que os americanos chamam de um fine piece of ass. Dizer que os diálogos são infantis é insultar a inteligência das crianças. Nenhum personagem, a julgar pelo nefasto roteiro, tem QI acima de 5. Se a idéia era que os personagens falassem como todo mundo fala, o resultado foi que eles falam como todo imbecil fala.

Que fim levou a excelente equipe de Filhos do Carnaval, a única coisa boa produzida pela HBO nestas bandas?

17.9.08

15º Porto Alegre em Cena

Começou bem o meu acompanhamento do 15º Porto Alegre em Cena, com o imperdível espetáculo Conceição, no qual dançarinos do grupo recifense Experimental fazem de seus belos corpos ondas do mar, pontes, rãs alienígenas e sacrários.





Em Fausto, a atração mais esperada desta edição do melhor festival de teatro do Brasil, o lituano Eimuntas Nekrosius subverte mais uma obra clássica, como fez brilhantemente em 2006 com seu Otelo. O texto de Goethe é mero pretexto, ninguém reage conforme se espera. Em situações de angústia e estresse, os intérpretes empunham objetos inúteis, tropeçam a esmo, repetem gestos sem sentido à exaustão. Nem tudo são alegorias — como o osso gigante que alude ao diabo, ao cão —, é perda de tempo procurar entender ou interpretar cada abstração ou elemento cenográfico insólito, cumpre tão-somente ver e sentir.


O diretor britânico Peter Brook não fez jus à sua reputação com The Grand Inquisitor. Sim, Bruce Myers declama muito bem o seu monólogo, ninguém discute isso, mas o texto não é teatro, é um mero capítulo do romance Os Irmãos Karamázovi, em que ele, Myers, faz de narrador e personagem ao mesmo tempo, sem nuanças entre um e outro. "Então ele disse: 'Tal coisa'." Sorry, não funciona.








Ontem foi a vez da montagem argentina da peça do norueguês Jon Fosse, La Noche Canta Sus Canciones, cuja excelência, realismo, concisão e tensão permanente demonstram que não só de Ibsen vive a dramaturgia da Noruega.

26.8.08

Napoleoniana

Não acreditei nos meus olhos ao folhear Os Crimes de Napoleão. O autor do factóide, um tal Claude Ribbe, pretende que um dos maiores estadistas da História usou câmaras de gás para eliminar seus oponentes, prefigurando Hitler. “Será por falta de hospícios que lunáticos andam soltos por aí publicando livros?”, pensei.

A lembrança de que eu conhecia o nome desse potoqueiro restituiu-me a fé na minha visão. Minha namorada me presenteou, anos atrás, com uma biografia do general Dumas, cujo autor, que não é outro senão o tal Ribbe, afirma que esse oficial, negro, foi terrivelmente discriminado e injustiçado por Napoleão. Nada mais absurdo, tendo seu filho Alexandre, pai dos Três Mosqueteiros e grande admirador do seu, nutrido veneração incondicional pelo imperador, ao qual enalteceu numa peça em seis atos, de 1831. Esse Ribbe, portanto, não passa de um recauchutado propagador da lenda negra de Napoleão como Ogro da Córsega, criada pelos feudalistas do século XVIII e mantida acesa até hoje pelos medíocres de todas as denominações.

(O tradutor dos supostos Crimes é um tal S. Duarte, que, coincidência ou não, traduziu outro panfleto antinapoleônico de autoria do jingoísta inglês Paul Johnson. Em ambos a esposa de Bonaparte é transcrita como “Joséphine”, não como “Josefina”, sinal claro de que o tradutor é tão ruim quanto os livros que traduz.)

Também absurdo, embora divertido e incomparavelmente mais bem escrito, é o outro lado da moeda, El alma de Napoleón, tradução espanhola do panegírico de Léon Bloy, para quem o imperador era “a face de Deus nas trevas”, o grande precursor do Cristo guerreiro descrito no Apocalipse. Segundo Bloy, diz o Espírito Santo:

Vuestro Emperador ha hecho lo que tenía que hacer, muy exactamente, como los soles o los animales, sin comprender ni saber, y la magnificencia que apareció en él antes de que cayese no era, con anticipación, sino un reflejo infinitamente pálido de mi propio esplendor.

Esses dois extremos, a lenda áurea e a lenda negra do grande Corso, são magistralmente depurados em Napoleão Bonaparte – Imaginário e Política em Portugal (c. 1808-1810), um dos melhores livros sobre o imperador, e de longe o melhor já escrito por brasileiro, no caso uma professora da UERJ de nome extenso como um subtítulo, Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves.

Lenda dourada ou lenda negra, a exaltação ou o repúdio alimentam-se de fatos resultantes da mesma trama. Tanto pelo Ogro quanto pelo de Napoleão, o Grande, vislumbra-se um perfil que aponta para uma origem nebulosa, uma rápida ascensão ao poder, uma sede de dominação, uma vontade férrea e um declínio fulminante. Por conseguinte, os mesmos elementos combinados forjaram tanto a imagem do herói, como a do anti-herói.


Para os portugueses, invadidos por ele em 1808, Napoleão era, além do anticristo, “parido por mãe que a cão e gato ofertava d’amor venal tributo”,

Um homem com cabeça de donato
Tendo por barretina uma caneca,
Os olhos gázeos, boca de alforreca,
O pescoço estendido como gato.

Outros lusitanos, no entanto, como o poeta romântico Francisco Joaquim Bingre, entreviam o herói conquistador no lugar do tirano invasor.

Na Córsega nasceu o bravo Marte
O astro de Paris de França a glória,
O grande Napoleão de alta memória
O sem-pavor soldado Bonaparte
As águias de seu ínclito estandarte
Fez voar sobre as asas da vitória
Sua fama nas páginas da História
Não morreu, inda vive em toda a parte.

23.8.08

Opus incertum

Acho que Ibsen não escreveu sua peça Imperador e Galileu para o palco mais do que o foram Macário, de Álvares de Azevedo, ou A Tentação de Santo Antão, de Flaubert, obras mais afins de Platão que de Sófocles. As outras peças do norueguês, tão enxutas e econômicas, pouca semelhança apresentam com Imperador e Galileu, que narra a vida do ícone neopagão Juliano, o Apóstata, ao longo de duas partes, com cinco atos e miríades de personagens cada, o que significa que, se encenada na íntegra, não duraria menos que dez horas.

É compreensível, pois, que qualquer encenação dessa peça seja necessariamente uma amostra. No entanto, desconfio que esta montagem de Sérgio Ferrara esteja mais para opus incertum que para amostra, pois algumas falas que ouvi ontem no teatro do Sesc Santana não me soaram como Ibsen (ainda não terminei de ler a versão francesa da peça, com quase 400 páginas, que baixei da internet), mas antes pareceram pescadas do romance Juliano, de Gore Vidal.

Mesmo que tenham sido, o enxerto pouco ajudou. A encenação de Ferrara tem o único mérito de ser inédita no Brasil. Eu disse “único mérito”, não “mérito único”. A direção é ruim, a cenografia inexistente, os atores medíocres — à exceção do veterano Abraão Farc, que por dois minutos rouba a cena, como monge cego que amaldiçoa o imperador — e, como sempre, tentou-se compensar a total falta de idéia nos figurinos vestindo todo mundo de preto.

Oxalá o Porto Alegre em Cena deste ano me devolva o gosto de ver teatro no Brasil, já que haverá montagens do mundo todo; que me faça gostar de ver teatro brasileiro, isso seria pedir demais.

19.6.08

Cleópatra: o umbigo de Júlio Bressane

Não canso de me surpreender com a distância existente entre os cineastas brasileiros e o público que vai ao cinema. Aqueles, em sua maior parte, não produzem filmes para ser assistidos, mas para ganhar prêmios em festivais. Exemplo gritante é Cleópatra, de Júlio Bressane, que estreou em São Paulo há pouco, em dois cinemas somente, com apenas uma sessão cada. Antes disso, já tinha participado de vários festivais de cinema pelo mundo, e talvez sido premiado em alguns: quem é que fica sabendo? Agora, assisti-lo mesmo, quem é que assiste, se ele estréia em duas míseras salas na maior cidade do país?

Num primeiro momento, a revolta: os cineastas brasileiros são discriminados, veja-se o Indiana Jones estourando em mais de 50 salas só em São Paulo! Mas não é bem assim. Os cineastas brasileiros é que não estão muito interessados em espectadores. Seu interesse é filmar o próprio umbigo, com os governos estaduais e municipais a financiar tais exercícios de narcisismo. O próprio Bressane sabia que seu filme era inassistível ao fazê-lo, pois em algumas estréias chegou a pedir ao público que não se retirasse antes do término das duas infindáveis horas de projeção.

Alguns artigos atrás, neste mesmo blog, critiquei os diretores teatrais brasileiros de um modo que, acredito, se aplica aos cineastas brasileiros:

Por que os diretores não páram com seus experimentalismos, bons apenas para eles e para seus egos inflados, e não dão aos espectadores de teatro o que pertence aos espectadores de teatro?

Acredito que a raiz desse mal está na relutância em profissionalizar a arte cênica. Fazer um teatro dirigido ao público pagante, ou seja, um "teatro profissional", não é encarado como arte, e sim como comércio, ou prestação de serviço. Daí os diretores teatrais brasileiros insistirem no amadorismo, na experimentação, na encenação do próprio ego, o mais distante possível do texto para teatro. Afinal, se algum desses empirismos vazios e egocêntricos for bem-sucedido, o mérito recairá sobre o diretor, e não sobre algum grego morto há milênios.

Onde diz "teatro" e "grego morto há milênios", leia-se respectivamente "cinema" e "roteirista profissional".

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A analogia com o teatro tem muito a ver com o filme de Bressane, inclusive porque sua Cleópatra funcionaria melhor num palco. Os cenários, figurinos e atuações ostentam o artificialismo que só perdoamos em espetáculos ao vivo. Não conheço outros filmes seus, mas ele não parece ser um cineasta que sabe aproveitar os inúmeros recursos da sétima arte. Todos os vícios do cinema nacional estão presentes neste Cleópatra: cenas interminavelmente longas, monótonas, mal editadas, sem trilha sonora, sem qualquer música de fundo as mais das vezes, som ruim, o áudio mal sincronizado com falas de atores em algumas cenas externas. Estes são mais que ruins (Miguel Falabella como Júlio César, por Júpiter!), e Alessandra Negrini no papel-título pouco tem a recomendá-la além da bundinha escultural. Todas as seqüências foram captadas com uma única câmera imóvel, de modo que são todas estáticas, além de intoleravelmente demoradas, como se o diretor quisesse tirar o máximo proveito dos quatro cenários (que seriam suficientes no teatro, mas num filme são indigência pura) e das peças de mobiliário copiadas (mal) de originais egípcios, como o pequeno trono de Tutancâmon.

Apesar dessas reproduções algo toscas, o filme não tem qualquer pretensão à historicidade; a Cleópatra de Bressane é puramente estética, e os nomes históricos de Alexandria, Atenas, Roma, funcionam como meros arquétipos. Por isso mesmo teriam sido benvindas inovações e transgressões no figurino e nos cenários, que parecem reles imitações baratas do filme estrelado por Elizabeth Taylor ou de montagens meia-boca da Paixão de Cristo.

Gostei da subjetividade dos diálogos, mas ela não consegue disfarçar inteiramente a pobreza das idéias expressas em frases como “contemple com seu olhar” ou “o mundo chama-se mundo porque é imundo”. Pensarão alguns que basta conjurar César, Cleópatra e Marco Antônio como personagens para que qualquer tolice posta na boca deles se transforme automaticamente em Shakespeare?

O filme pelo menos evita lugares-comuns, como o da serpente que teria dado morte à lendária rainha do Egito. Esta, ao invés, bebe de um veneno que ocultava no próprio umbigo. Duvido que Bressane tenha feito de propósito, mas metáfora nenhuma poderia ser mais oportuna para mostrar o que está envenenando o cinema nacional: a adoração dos cineastas ao próprio umbigo.

25.3.08

Por que "Robin e Marian"?

Não é o filme favorito de ninguém, só meu. Afinal, está longe, muito longe, do Robin Hood de Errol Flyn, que mais parece o Peter Pan. Este filme de 1976, dirigido por Richard Lester, deveria chamar-se A Morte de Robin Hood, por se tratar da desconstrução, conquanto lírica, do mito. O mito do nobre que foi viver na floresta de Sherwood com seu alegre bando de foras-da-lei e sua mulher, Lady Marian, de onde, roubando dos ricos para dar aos pobres, combatia o maligno e arbitrário xerife de Nottingham, bem como ao desumano príncipe João-sem-Terra, regente da Inglaterra enquanto seu irmão, o galante e heróico rei Ricardo Coração de Leão, combatia na Terra Santa como Cavaleiro de Cristo. Com a volta do rei, tudo se normalizava, a justiça prevalecia, até que Robin Hood, envenenado por uma cruel freira, disparava do alto da abadia de Kirkley uma flecha, pedindo ao fiel amigo e escudeiro, João Pequeno, assim chamado por ser um gigante, que o enterrasse no local por ela atingido.

O Robin Hood de Sean Connery (que então surpreendeu ao mostrar-se bom ator) nada é além de um camponês bronco e tolo. Pior: está velho, isto é, com mais de quarenta anos, numa Idade Média em que a expectativa de vida para os homens beirava três décadas. Vinte anos depois de partir ele está, como um Chabert inglês, retornando das Cruzadas, cansado e desiludido com as matanças que ajudou a promover. Seu rei-cruzado Ricardo não passa dum açougueiro; quando o filme começa, este está sitiando um castelo cheio de mulheres e crianças que supostamente sonegam-lhe uma estátua de ouro. Robin recusa-se a chaciná-las; Ricardo manda prendê-lo e as chacina pessoalmente, para logo perceber, sem remorso, que seu tesouro era uma pedra. Um velho caolho na amurada atira-lhe, sem arco, uma flecha, e para sua própria surpresa, atinge o rei no pescoço. Foi o único a escapar do massacre. “Gostei do olho dele”, Ricardo justifica-se, antes de morrer, praguejando, por causa do ferimento. “Que será de você, alegre Robin”, diz, libertando seu prisioneiro, “agora que morri?”

João Pequeno, que no filme tem a mesma altura de Robin, pergunta para onde irão. “Para casa, John.” Na Inglaterra, os velhos companheiros de Robin, o menestrel Will Scarlet e o Frei Tuck, não estão em situação melhor. Com o embargo do odioso João-sem-Terra (que agora a tinha toda) ao Papado, eles sobrevivem roubando cavalos dos que se confessam com o frade. Robin surpreende-se ao saber que seus feitos heróicos percorrem o reino em forma de baladas. “Mas eu não fiz nada disso!” “Nós sabemos que não”, sorri Will Scarlet, dedilhando seu alaúde.

Mas a maior surpresa desse Odisseu medieval está por vir: sua Penélope casou-se... com Cristo. Madura e linda, Audrey Hepburn é Marian, abadessa de Kirkley, e está prestes a entregar-se prisioneira ao governo anticlerical. Robin insiste em salvá-la, ela não quer. Ele bate nela e a carrega como um fardo, em seu cavalo. Mais tarde ela diz que um dente seu ficou solto. Robin é um tolo, mas não a ponto de ignorá-lo. “Nunca quis magoar você, mas é só o que faço.” Como se recordasse de algo, ela o encara. “Você nunca escreveu.” E ele, algo atônito: “Eu não sei escrever”...

Robin gostou de bancar o herói. Vai salvar agora as outras freiras, gordas, aprisionadas em Nottingham. Ele e João roubam uma carroça e se disfarçam de mercadores. Ao xerife bastou olhar a carroça que se aproxima para saber que é seu patético oponente. “Dois cavalos puxando, e dois para empurrar? Quase lamento.” E quando um sentinela imbecil se dá o imenso trabalho de desatar o nó para fazer cair o portão e capturar Robin na óbvia armadilha, o enfastiado xerife diz: “Cut it, for Christ’ sake!” O modo como Robin e João escapam é o menos heróico possível. Eles são lentos, os guardas do xerife incompetentes. Muito sangue para pouca luta. O maravilhoso Robert Shaw é o xerife, homem cultivado, religioso, cavalheiresco. “Dois homens velhos, meu bom Deus!...”

Com algumas cicatrizes a mais, Robin volta a se interessar por Marian. “Nunca beijei uma freira; será pecado?” Continua tão bela, que não beijá-la é que seria. Mas ela tem suas próprias cicatrizes: os pulsos que cortou há vinte anos, antes de contrair os votos. “Rezei tanto, fiz penitências terríveis, mas só o tempo... eu não sonho mais com você, Robin.” E em seguida, com característica coerência feminina: “Houve muitas mulheres nas Cruzadas?” “Várias, sim... mas todas se pareciam com você.” Ela por fim se deixa abraçar. “Tenho me sentido tão pouco por tanto tempo...” Então, à beira do rio, iluminada pela deslumbrante fotografia de David Watkins, ela suplica: “Machuque-me... Faça-me chorar!” Eles se deitam em um trigal, desaparecendo no mar dourado, o ocaso de duas lendas.

Camponeses, iludidos pelas canções heróicas, procuram Robin para que ele os lidere contra o honesto, porém feudal, xerife. Robin também se ilude; talvez ele seja mais, afinal, do que um velho reumático. O interessante é que, no filme todo, ele mal dispara uma seta... O bandoleiro e o xerife concordam em travar um combate singular; rezam primeiro, lado a lado, usando as espadas como crucifixos. O respeito, quase afeto, de um pelo outro, é surpreendente. O xerife ordena aos seus homens que deixem os camponeses em paz, caso perca. No combate, revela-se melhor combatente, porém fisicamente mais débil que o brutamontes Connery. Ele fere Robin mortalmente, mas é morto por este. João e Marian levam Robin à abadia, enquanto os homens do xerife, indiferentes às ordens do seu finado comandante, massacram e aprisionam o efêmero bando de Sherwood.

Delirante, Robin festeja sua inútil vitória. “Você cuidará de mim até eu sarar”, diz a Marian, “e então... grandes batalhas! Nossa vida será tema de baladas!” Ela lhe dá uma beberagem, não sem antes beber um bom gole. Ele aprova o remédio, pois não sente dor. Nem dor, nem seus membros. “João! Socorro, fui envenenado!” Por um momento ela parece a própria morte, branca, alta, definhando. Desesperado, ele pergunta: “Por quê?!” A voz da freira soa como o vento entre os trigais: “Amo você... mais que à luz do Sol... mais que ao corpo, à alegria, ou mais um dia... mais que a Deus.” Não foi bem uma resposta. Teria sido para salvar-lhe a alma, para que não sofresse, para quê? Pouco importa. Robin se resigna. “Nós não teríamos mesmo outro dia assim, teríamos?” Mesmo em sua obtusidade camponesa, sabe que se algo nele vale a pena manter vivo, é a lenda. Por isso, quando João Pequeno, chorando como uma criança, o abraça, ele tira uma flecha da sua aljava e ajusta-a, trêmulo, ao famoso arco. “Onde cair, coloque-nos juntos... e deixe-nos lá...”

A seta dispara janela afora, e se perde no céu infinito, ao som da música de John Barry. Close em duas maçãs podres sobre o parapeito.

24.2.08

José Bonaparte

Minha cena favorita de um filme que não me agradou, Goya's Ghosts, como já escrevi alguns posts atrás.

1808. O novo rei da Espanha, José Bonaparte, irmão de Napoleão, examina as obras de Bosch, Goya e Velásquez, na Galeria Real de Madri, decidindo quais mandará para o seu irmão imperador, em Paris.

Quem estiver a fim, pode baixar esse clipe aqui.

11.2.08

Jornalismo histórico ao invés de História

Num primeiro momento, 1808, de Laurentino Gomes, pareceria um D. João VI no Brasil for dummies, exceto pela abrangência da pesquisa realizada – ainda que exclusivamente de fontes secundárias – e pela pertinência das analogias entre o Brasil de hoje e o de duzentos anos atrás. O livro também se apóia demais em fontes extraídas da internet, o que é edificar sobre a areia, mas isso faz parte da nova tendência de escrever História neste país: a acessibilidade e a fluidez textual substituindo o rigor histórico e a elegância estilística. O estilo jornalístico já invadiu a literatura, agora se apodera da historiografia. Concordo que Oliveira Lima é meio chato de ler, mas que ensina a escrever, ensina. 1808 desperta o gosto pela História do Brasil, embora não pelo idioma do Brasil (assumindo que este ainda seja o português).

Não tenho pachorra para conferir a pletora de dados e números fornecidos na obra, mas confesso que minha fé na exatidão do autor foi levemente abalada por ele não ter, a julgar pela bibliografia, consultado uma fonte primária sequer – isto é, documentos originais, ao invés de outros livros que citam esses documentos – e também por ter errado feio ao parafrasear Chateaubriand, que definiu Napoleão como “o mais poderoso sopro de vida que já animou o barro humano”, e não como “o mais poderoso sopro de vida que já tinha passado pela face da Terra”, conforme citou Laurentino na página 44. Tampouco entendi o uso de “George III” ao invés de “Jorge III”, uma vez que a obra está, ao menos oficialmente, redigida em português. E o “benções” da página 146, juntamente com os muitos outros erros de ortografia e gramática ao longo das mais de 400 páginas, não me surpreenderam de todo, familiarizado que já estou com a péssima qualidade da Editora Planeta no que tange a revisão de texto e traduções.

Mas são bagatelas, admito, e essa pequena obra-prima do jornalismo histórico bem merece ser adotada por escolas de ensino médio do país.

7.2.08

A morte de Andy Warhol

Cena do filme Basquiat (1996), de Julian Schnabel.

Se quiser, faça o download desse clipe aqui.

28.1.08

Ateísmo para crianças

Pior ainda que admitir um erro é dar razão a um fundamentalista.

Quando escrevi, em comentário anterior, que A Bússola de Ouro, do inglês Philip Pullman, não denigre igreja cristã alguma, eu estava enganado, e o zelote William Donohue, da Catholic League norte-americana, infelizmente, certo. Depois de ler as duas seqüências, A Faca Sutil, e A Luneta Âmbar, sou obrigado a concordar: a trilogia infanto-juvenil Fronteiras do Universo [His Dark Materials] é uma das obras mais anticristãs, anticlericais e anti-católicas já publicadas desde o último suspiro no Gólgota. Voltaire e Nietzsche são coroinhas se comparados ao ateu militante Pullman, cujo propósito declarado é inculcar ateísmo nos jovens desde a mais tenra idade.

Muito cativante e bem contada, a história pretende ser um épico de fantasia ao estilo Crônicas de Nárnia, porém com uma propaganda ateísta explícita, bastante diferente da mensagem cristã implícita de C. S. Lewis (ver a resenha do filme baseado em sua obra). Em Fronteiras do Universo não vemos elfos, gnomos, duendes e outras figuras da mitologia nórdica presentes em Harry Potter ou no Senhor dos Anéis, mas tão-somente figuras da mitologia judaico-cristã, como anjos, bruxas e demônios (estes últimos retratados de modo bem positivo, como simpáticos bichinhos falantes que acompanham cada humano). Deus, conforme explica o casal homossexual de anjos Balthamos e Baruch, nunca foi o Criador, e sim um mero anjo vigarista que enganou todo mundo fazendo-se passar por Todo-Poderoso. Noutras palavras, Deus não existe, a vida eterna não existe, e a religião cristã é uma perniciosa farsa com o propósito exclusivo de manter a humanidade imersa na ignorância e no obscurantismo.

Li com grande prazer a Bússola e a Faca, mas com certa impaciência e cansaço as 526 páginas da Luneta Âmbar, não pelo tamanho, mas pela carga excessivamente teológica e agressivamente anticristã do volume, capazes de agastar até um católico aposentado como eu. Também achei algumas coisas pouquíssimo convincentes, como as duas crianças, Lyra e Will, chegando (vivas) ao Reino dos Mortos, onde todos falam inglês, como elas. Esse, aliás, é um problema em todos os livros: até os ursos polares de A Bússola de Ouro, e as crianças da cidade latina imaginária Cittagàzze, de A Faca Sutil, falam perfeitamente o idioma do autor.

Fãs, inclusive, opinaram que a Luneta, embora premiada em 2001, passa dos limites ao retratar todos os padres como assassinos e castradores de crianças, e ao repisar, de modo quase obsessivo, seu catecismo agnóstico. É uma pena que um escritor de tão rica imaginação e tamanho talento narrativo nada tenha de mais profundo para ensinar às crianças além de “Esta vida é tudo que temos, portanto desfrutem-na ao máximo”, isto é, o ancestral e mais que obedecido à risca carpe diem. Sentido da vida por sentido da vida, prefiro o do Monty Python: “Tente ser legal com as pessoas, evite comer gordura, leia um bom livro de vez em quando, faça caminhadas, e procure conviver em paz e harmonia com pessoas de todos os credos e nacionalidades”.

Recomendo a leitura dessa fabulosa trilogia aos ateus adultos que apreciem fantasias e narrativas intrincadas, bem como às crianças e adolescentes que não estejam sendo educados pelos pais em alguma religião cristã.

15.1.08

Obrigado, fundamentalistas!

Sempre que um grupo fundamentalista se manifesta contra alguma obra de arte ou entretenimento, faço questão de conhecer essa obra, não importa o que os críticos digam a respeito dela. Via de regra, tais obras são muito boas; afinal, se os fundamentalistas as odeiam, é porque algo de bom elas devem ter. E, de fato, devo aos xiitas iranianos e neopentecostais, respectivamente, o prazer de ter conhecido Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, e os livros da série Harry Potter.

Desta vez, minha dívida é com os fundamentalistas católicos norte-americanos, que se mobilizaram para boicotar o belíssimo e encantador filme de fantasia A Bússola de Ouro, alegando que o romance em que se baseou, escrito pelo inglês Philip Pullman, é essencialmente anticlerical. Falam sobre uma “campanha insidiosa” para inculcar ateísmo às crianças e denegrir o cristianismo. O porta-voz dessa insanidade é um energúmeno chamado William Donohue, presidente de uma tal Catholic League, cujo logotipo não tem cruz alguma, mas tão-somente uma espada.

Em vista disso, não tive dúvidas: assisti ao filme, amei cada minuto de projeção, e comecei a ler o livro, tudo graças ao boicote desses fanáticos. Impressa ou projetada, A Bússola de Ouro, com sua simpática protagonista mirim, seus animais falantes, ursos polares de armadura e belas lições de coragem e amizade, não denigre igreja específica alguma. Em contrapartida, os prelados sinistros e intolerantes da organização intitulada Magisterium, vilões da premiada trilogia His Dark Materials de Pullman (traduzida aqui como Fronteiras do Universo), lembram muito o boçal Donohue e sua liga fascistóide.

Façam um favor às crianças de vocês e às crianças que há em vocês: assistam ao livro e leiam o filme A Bússola de Ouro.

28.12.07

Muita sombra e pouco Goya

O judeu tcheco Milos Forman passará à história do cinema hollywoodiano como diretor de apenas um grande filme: Amadeus, de 1984. Seus outros filmes são apenas razoáveis, e o último, Goya’s Ghosts – estupidamente traduzido aqui como Sombras de Goya, não como Fantasmas de Goya –, é, no máximo, interessante, e mesmo assim somente para aficionados por Goya e por História.

O problema principal do filme é o próprio Francisco Goya, pintor da corte espanhola. Ele não é o protagonista, ao contrário do que o título possa sugerir; não é sequer um personagem propriamente dito, e sim um mero espectador do que acontece à sua volta, bem como testemunha das transformações que sacudiram a Espanha na virada do século XVIII para o XIX, as quais ele registra em suas pinturas e gravuras. É uma pena para o impecável ator sueco Stellan Skarsgärd, que perdeu a chance de mais um bom desempenho.

De um modo geral, o período evocado pelo filme é demasiado rico em acontecimentos históricos para fazer jus a conflitos humanos individuais, por isso todos os personagens são emblemáticos. O exemplo mais evidente disso é o padre Lorenzo, interpretado por Javier Bardem, que começa como inqusidor-mor, ajudando a tornar a Inquisição ainda mais desumana do que já era. Quando as tropas de Napoleão invadem a Espanha e põem fim ao reinado de terror dos monges dominicanos, o padre renegado vira a casaca e se torna ministro do novo rei, José Bonaparte, irmão de Napoleão. A cena de que mais gostei foi o rei republicano separando quadros de Velásquez para enviá-los ao imperador em Paris, rejeitando, porém, os de Bosch, ou El Bosco, como os espanhóis o conhecem.

O filme abunda em símbolos e metáforas, já que um dos roteiristas é Jean-Claude Carrière, que trabalhou com Buñuel. Logo no início vemos, durante uma caçada do decadente Carlos IV da Espanha (avô de nosso dom Pedro I), dois abutres lutando pela carcaça de um cordeiro, alusão à Espanha disputada pelas rapinantes potências da época.

Particularmente desagradável e excessivo é o massacre sem trégua, durante o filme inteiro, da jovem, inocente e bela Inês, personagem interpretada pela apetecível Natalie Portman. Presa e torturada pela Inquisição por não gostar de porco – o que para a jurisprudência viciada desse tribunal eclesiástico constituía prova de prática de rituais judaicos – a pobre moça é ainda abusada pelo infame Lorenzo numa sórdida enxovia, onde é deixada apodrecendo por quinze anos. Quando todos os prisioneiros da Inquisição são libertados pelos franceses, Inês, reduzida a um trapo humano, sai da masmorra apenas para descobrir que as mesmas tropas que lhe deram liberdade mataram toda a sua família, e para ser aprisionada de novo, desta vez num hospício, pelo mesmo Lorenzo – agora mais republicano que Robespierre –, sem jamais reencontrar a filha cujo pai era o ex-padre. E o pior de tudo é que a infeliz continua apaixonada até o fim pelo miserável que a destruiu. Inês lembra um pouco Ana, de Ana e os Lobos, estuprada e assassinada por três homens que representam os poderes opressores da Espanha de Franco. Inês – cujo nome em latim quer dizer “cordeiro” – é a Espanha, eternamente apaixonada por seus opressores.

Mais uma metáfora: Goya fica surdo a partir da segunda metade do filme, quando o país luta para se livrar dos invasores franceses. Se a mulher espanhola ama quem a “fode”, o homem espanhol não escuta à voz da razão.

Curioso também que, quando os ingleses expulsam os franceses da Espanha – e a filha de Inês, Alicia, que havia se tornado prostituta, acaba como a nova amante de Wellington – é restaurada não só a decadente monarquia espanhola, na pessoa do incompetente Fernando VII, mas também a execrável Inquisição. Ora, foram justamente os historiadores ingleses, desde os conflitos entre Inglaterra e Espanha no século XVII, que pintaram a Inquisição espanhola com as tintas diabólicas que até hoje não se desbotaram. Pois antes de se tornar mero instrumento de terror e poder, esse tribunal chegou a servir à Justiça, cujo conceito era bem diferente do que conhecemos hoje.

Se Fantasmas de Goya funciona melhor como História que como Cinema, é preciso observar que o drama de Inês é historicamente improvável. A perseguição da Inquisição aos marranos ricos – e Inês, no filme, é de família rica – tinha propósitos pecuniários bem como teológicos. Quando um infeliz era acusado de heresia e, sob tortura, confessava sê-lo, o interrogatório da Inquisição procurava fazer com que toda a família fosse implicada também, pois os bens dos “hereges” eram confiscados pelo sinistro tribunal. Ora, isso não acontece no filme, embora Bilbatúa, o pai de Inês, fosse rico e descendente de judeus; ele seria, na verdade, uma presa muito mais atraente para a cobiça inquisitorial do que a sua filha.

Condenada juntamente com o pai e o noivo, Branca Dias, da ótima peça de Dias Gomes O Santo Inquérito, é uma vítima da Inquisição muito mais plausível e convincente do que a Inês interpretada pela judia Portman e dirigida pelo filho de vítimas de Auschwitz Forman. Dominada pelo lobby judaico, Hollywood tem mania de exagerar nos paralelos entre a Inquisição e o Holocausto, coisas completamente diferentes.

19.12.07

Entender para quê?

Devo muito a Luiz Carlos Lisboa, que em seu Pequeno Guia da Literatura Universal indicou os livros que nenhum leitor esclarecido pode ignorar impunemente. Graças a ele conheci H. P. Lovecraft, um dos precursores do realismo fantástico, e também José J. Veiga, representante brasileiro maior do realismo mágico, com seu kafkiano Sombras de Reis Barbudos, que terminei de ler ontem.

Nunca me aconteceu antes permanecer momentos a fio sob efeito de um livro recém-lido, imerso numa espécie de estado de graça intelectual. Sombras de Reis Barbudos é dessas obras que têm uma comunicação direta com o inconsciente. O consciente não capta o significado de todas as alegorias e símbolos que permeiam a narrativa enxuta e fluída, e nem precisa. Os acontecimentos descritos, bastante prosaicos em si, estão impregnados por uma realidade subjacente que parece uma sombra distorcida das coisas comuns que enxergamos.

Considerado o melhor romance de 1972, esse livro onírico, publicado no auge da Ditadura Militar, fala de uma cidadezinha rural dominada por uma misteriosa Companhia, que cercou o povoado de muros imensos e se dedica a impor esdrúxulas proibições e punições aos cidadãos atônitos. Quando miríades de urubus adejam o povoado e todos adquirem lunetas para vê-los, estas são proibidas, e posteriormente obsoletas, pois os urubus desceram e se tornaram bichos de estimação dos aldeões; quando pessoas aparecem voando, a Companhia prontamente proíbe que se erga os olhos ao céu para contemplá-las. A fim de evitar o risco de as pessoas sofrerem as conseqüências por se distraírem e acabar levantando a cabeça, Lucas, o garoto narrador, explica o que foi feito:

Contra esse perigo alguém inventou esse aparelho que vai intrigar muita gente amanhã, quando ele for encontrado em nossos porões ou desenterrado de monturos por aí. Como é que nossos netos ou bisnetos vão saber para que serviam esses blocos de madeira formados de duas partes unidas por dobradiça de um lado e fechadas com trinco de outro, tendo no meio um buraco da grossura de um pescoço, e numa das metades um espeto com a ponta inclinada para o centro? Será que alguém vai descobrir que isso é um aparelho que usávamos em volta do pescoço quando saíamos à rua, e que o espeto servia para cutucar a nuca quando a pessoa se distraía e erguia um pouco a cabeça?

Os “reis barbudos” são, naturalmente, os donos do poder, sua sombra é a opressão com que cobrem o povo; os urubus, as pessoas que voam, as chuvas ininterruptas, a queda de Tio Baltazar, fundador da Companhia e depois sua vítima, tudo isso se presta a exercícios de decifração, embora o livro não exija ser entendido, mas tão-somente sonhado.

13.12.07

Nietzsche justificando Dan Brown e Zíbia Gasparetto

Necessidade de maus escritores. — Sempre deverão existir maus escritores, pois eles atendem ao gosto das faixas de idade não desenvolvidas, imaturas; estas têm suas necessidades, tanto como as maduras. Se a vida humana fosse mais longa, o número de indivíduos amadurecidos seria maior ou, no mínimo, tão grande quanto o de imaturos; ocorre que a imensa maioria morre cedo demais, isto é, há sempre bem mais intelectos não desenvolvidos e com mau gosto. Além disso eles desejam, com a enorme veemência da juventude, a satisfação daquilo de que necessitam, e forçam o surgimento de maus escritores.



Fonte: Humano, Demasiado Humano

Reality show com glamour

Para a maioria dos marmanjos, um programa tão feminino como Brazil's Next Top Model é uma mera desculpa para ver mulheres bonitas. Não nego ser um deles, sobretudo porque abomino reality shows. Esse, no entanto, tem um propósito específico e bastante pragmático, ao contrário dos Big Brothers da vida: introduzir uma nova supermodelo brasileira no competitivo e anoréxico mercado internacional da moda.

Não assisti ao programa original norte-americano, do qual este é a versão brasileira. Quem viu, disse que o de lá conta com muito mais recursos: grande novidade. Só sei que o daqui, a despeito da simplicidade local, parece feito com doses razoáveis de profissionalismo e bom gosto. Ele é informativo na medida em que deixa claro não se tratar de um concurso de beleza, e a transformação física das jovens concorrentes ao longo dos episódios salta aos olhos. A modelo Fernanda Motta é uma apresentadora competente, e a consultora de moda Érica Palomino faz um papel parecido ao do jurado de programa de auditório que sempre desanca o calouro.

O pior do programa são as intervenções estilo reality show, a saber, supostas brigas, picuinhas e desabafos das jovens, flagradas por câmeras indiscretas nos dormitórios da casa onde elas vivem confinadas durante a competição, como se esta só tivesse graça se temperada por cenas de alcova. Também incomoda um pouco constatar quão impiedoso, quão nocivo o mercado da moda pode ser ao vermos moças lindas, esbeltas e saudáveis chamadas de "gordas" por não serem esqueléticas, ou de "feias" por não serem fotogênicas, ou mesmo de "velhas" por terem mais de dezenove anos.

22.11.07

Horroróscopo



Uma das melhores coisas que já recebi via internet.


O LADO NEGRO DO SEU SIGNO


Áries (21 de março a 20 de abril)

Você se acha muito honesto, íntegro, independente e poderoso. Bom, isso é o que você acha... Você adora mandar e botar tudo pra “ferver”, mas desde que seja do seu jeito, mesmo que seja na porrada. Você não consegue influenciar ninguém, apesar de ficar o tempo todo tentando exibir o seu poder. Os arianos são ótimos juízes, sogras e lutadores de jiu-jitsu.


Touro (21 de abril a 20 de maio)

Você tem muita determinação e trabalha como um condenado. A maioria das pessoas acha que você é um pão-duro e cabeça-dura: estão certas. Sua persistência faz de você um puta de um chato. Você é guloso, adora a natureza, o belo e ser amado. Taurinos são bons tri-atletas, vendedores de enciclopédias e decoradores.


Gêmeos (21 de maio a 20 de junho)

Você é comunicativo, curioso, bem humorado, inteligente e tem duas caras. Sua inconstância e preguiça fazem de você um manipulador de primeira. Você não liga para o que os outros sentem e adora distribuir chifres por aí. Geminianos costumam fazer muito sucesso na política, no circo, na novela das oito e pulando cerca.


Câncer (21 de junho a 21 de julho)

Você é solitário, defensivo e compreensivo com os problemas das outras pessoas, o que faz de você um xarope. Você se considera pé-frio e mal-amado. Sua compaixão, sensibilidade e emotividade fazem do homem de câncer uma tremenda de uma bichona. Os cancerianos são ótimos cabeleireiros, melhores amigas e leitores de romances água-com-açúcar. .
.Leão (22 de julho a 22 de agosto)

Você se considera um líder natural. Os outros acham você um idiota completo. Você é vaidoso, arrogante, orgulhoso e impaciente, como se fosse a última coca-cola gelada do deserto, e costuma lidar com críticas na base da porrada. Os leoninos são excelentes guardas de trânsito, ditadores e emergentes.


Virgem (23 de agosto a 22 de setembro)

Você é do tipo lógico, trabalhador, analítico, tímido e odeia desordem. Sua atitude detalhista e organizada é enjoativa para seus amigos e colegas de trabalho. Você é frio, não tem emoções e freqüentemente dorme enquanto está transando. Virginianos dão bons cobradores de ônibus, costureiras e montadores de quebra-cabeças.


Libra (23 de setembro a 22 de outubro)

Você é do tipo artístico, discreto, equilibrado e idealista, com muito gosto pelo harmonioso e esteticamente belo. Se você for homem, provavelmente é gay; se for mulher, tem queda para dondoca. Você sente necessidade de proteger os outros e lutar contra as injustiças, mas sempre esperando algo em troca. Os librianos são perfeitos na advocacia, arquitetura e gerenciando casas noturnas.


Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro)

Você é o pior de todos: desconfiado, vingativo, obsessivo, rancoroso, frio, orgulhoso, pessimista, malicioso, cínico, fofoqueiro e traiçoeiro nos negócios. Você é o perfeito filho da p..., só ama a sua mãe e a si mesmo. O escorpiano leva jeito para terrorista, nazista, dentista, fiscal da receita e juiz de futebol.


Sagitário (22 de novembro a 21 de dezembro)

Você é otimista, aventureiro, entusiástico e tem uma forte tendência a confiar na sorte. O que é necessário para quem é imprudente, exagerado, indisciplinado, irresponsável, infantil, sem concentração e limitado. Isso explica por que a maioria dos sagitarianos são bêbados. São ótimos garçons, jornalistas e bicheiros.


Capricórnio (22 de dezembro a 20 de janeiro)

Você é conservador, sério, frio e inflexível como uma baixela de inox. Sua fidelidade e paciência não encobrem seu lado materialista e avarento, mas quem se importa? Se a grana está entrando... Os capricornianos são um sucesso como bancários, banqueiros, agiotas ou simplesmente contando dinheiro em casa.


Aquário (21 de janeiro a 19 de fevereiro)

Você tem uma mente inventiva e dirigida para o progresso. Você mente e comete os mesmos erros repetidamente porque é imbecil e teimoso. Adora novelas, se reunir em grupos e ser fashion. Se você é homem... cuidado! Os aquarianos são ótimos sindicalistas e estilistas, às vezes, ambos ao mesmo tempo.


Peixes (20 de fevereiro a 20 de março)
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Você é do tipo sonhador, místico, sensível e costuma se doar muito. Se você é homem, as suas chances de ser gay são consideráveis. Você é cheio de conselhos fúteis e não faz nada além de encher o saco de todos que se aproximam de você. As piscianas dão boas apresentadoras de programa infantil e atrizes pornô.

13.11.07

Indomitamente diabólico

Nunca suportei Martinho Lutero (1483-1546). Não por ultramontanismo da minha parte, mas porque sempre o vi como um charlatão epilético e oportunista, cuja “reforma”, na verdade um mero cisma, só vingou porque um punhado de gananciosos nobres alemães do século XVI adotou-lhe as idéias a fim de poder saquear à vontade as propriedades da Igreja Católica em seus territórios. Afinal, um teólogo que escreve coisas do tipo “a religião dos príncipes é a religião dos súditos” e “o príncipe já é bispo por nascimento”, não pode ser menos que a coqueluche dos poderosos.

E também sanguinário: insuflou os camponeses da Suábia e depois chamou seus patrões príncipes para massacrá-los. Foi uma espécie de Henrique VIII alemão, com uns delírios de mais e uxoricídios de menos. Não por acaso odiavam-se os dois cismáticos, de tão parecidos que eram, inclusive fisicamente, na energia excessiva e algo desgovernada, bem como nos banhos de sangue que promoveram. O legado luterano representa o lado mais negro e abjeto do fundamentalismo cristão, tendo sido a verdadeira inspiração do nazismo e seu Holocausto.

Em suma, o monge renegado Lutero só foi menos criminoso que o pseudobispo Edir Macedo porque não roubava.

Pois bem, o belíssimo livro Lutero e a Igreja do Pecado acrescentou uma nova dimensão à imagem que eu fazia do agostiniano, tornando-a muito mais multifacetada -- ao contrário da imagem do pseudobispo citado, que sempre teve uma só faceta, a de estelionatário. O heresiarca alemão foi ao menos um fanático sincero -- coisa que nunca se poderá dizer do sectário carioca que comprou uma emissora de TV extorquindo pobres.

Não é de estranhar que o monge de Wittenberg odiasse a Igreja e o papa mais que tudo no mundo, pois decerto projetava neles a imagem de seus horríveis pais, um casal de camponeses supersticiosos e violentos que o surravam por qualquer coisa quando Martinho era criança. Ele tinha problemas mentais sérios, decorrentes ou não da epilepsia, e sofria de alucinações em que via o diabo até debaixo das unhas. Hoje seria diagnosticado como paranóide esquizofrênico, fatalmente destinado a terminar seus dias como presidente dos Estados Unidos da América.

Essa interessante tese biográfica defende, contudo, que a principal motivação de Lutero para a fundação do protestantismo não foi o amor a Cristo, e sim o horror ao diabo. Não é novidade para ninguém que tanto os protestantes históricos quanto os neopentecostais, além de idolatrarem um livro repleto de problemas de tradução, sempre deram muito mais valor ao capiroto que a Deus. Pois ambas as atitudes, segundo Lutero e a Igreja do Pecado, teriam sua gênese no próprio bibliólatra alemão. Prova de que as instituições são sombras prolongadas de seus fundadores.
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Interessante que o autor desse livro seja Fernando Jorge, escritor que apresenta diversas analogias com o alucinado de Wittenberg. Seu livro termina com a seguinte citação: “Ele tinha -- como devo dizer? -- algo original, incompreensível, miraculoso, tal como encontramos em todos os homens providenciais, algo aterradoramente ingênuo, simploriamente astuto, sublimemente limitado, indomitamente diabólico”.
Essas palavras com que Heinrich Heine descreveu Lutero, ajustam-se na verdade como uma luva a Fernando Jorge.
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Embora seja um dos nossos melhores biógrafos vivos, muitos se lembram dele apenas por seu impiedoso ataque ao “papa” do jornalismo brasileiro intitulado Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis, cuja enumeração incansável dos plágios e embustes sem conta daquele fabricante de factóides estendeu-se muito além das 95 teses que Lutero pregou na igreja de Wittenberg. Não contente com isso, Jorge vilipendiou a “Igreja” dos escritores, a sacrossanta Academia Brasileira de Letras, retratando-a como uma corporação de nestóreos e pouco letrados cortejadores do Poder, em seu hilário A Academia do Fardão e da Confusão.
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Jornalista, espinafrou o papa do jornalismo; escritor, enxovalhou a igreja das Letras: difícil ser mais luciferino que isso. Felizmente, ao invés de sangue, faz escorrer bile dos ridículos, dos apaniguados e dos soberbos. Fernando Jorge tem, definitivamente, algo de diabólico. Alguém já viu o “f” da assinatura dele? É idêntico a um tridente!

31.10.07

Porto Alegre em Cena - II





















Dois espetáculos de dança quase contrastantes: Kagemi e Boccatango. Dança butô e balé moderno, o milenar e o contemporâneo, o japonês e o argentino. O eterno e o efêmero.

As peças Família e A Pedra do Reino me levam à mesma reflexão do Porto Alegre em Cena do ano passado, quando Luís Melo interpretou Tchekov, não uma peça dele, que as tem tantas, e sim um conto de Tchekov. Por Melpômene, o que os diretores de teatro contemporâneos têm contra peças de teatro?
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Família é a versão teatral de um filme de Fernando Leon de Aranoa, e A Pedra é a adaptação de Antunes Filho para o romance de Ariano Suassuna. Resultado sofrível nos dois casos, como o seria, da mesma forma, um longa-metragem filmado não sobre um roteiro cinematográfico, mas a partir de uma partitura.


















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Compreendo a sede de experimentalismo cênico em países europeus, que conhecem suas peças clássicas de memória e não mais suportam vê-las de forma tradicional. Mas aqui não há memória, e tradicionais são apenas os vícios da classe política.



Teatro mesmo, autêntico, clássico, é Las Troyanas, do bom e velho Eurípedes. Não é a montagem mais cara e nem a mais bem dirigida, mas a única em que os termos "poesia" e "desempenho dramático" vêm à mente com alguma freqüência.



Por que os diretores não páram com seus experimentalismos, bons apenas para eles e para seus egos inflados, e não dão aos espectadores de teatro o que pertence aos espectadores de teatro?

Acredito que a raiz desse mal está na relutância em profissionalizar a arte cênica. Fazer um teatro dirigido ao público pagante, ou seja, um "teatro profissional", não é encarado como arte, e sim como comércio, ou prestação de serviço. Daí os diretores teatrais brasileiros insistirem no amadorismo, na experimentação, na encenação do próprio ego, o mais distante possível do texto para teatro. Afinal, se algum desses empirismos vazios e egocêntricos for bem-sucedido, o mérito recairá sobre o diretor, e não sobre algum grego morto há milênios.

15.9.07

Porto Alegre em Cena - I

Setembro começou com mais uma edição, a 14ª, do imperdível Porto Alegre em Cena, o maior e melhor festival de teatro deste pobre país cujos maiores histriões encontram-se não nos palcos, mas na política.



Não sei se alguém já utilizou o termo "teatro sensorial", mas mesmo que não tenha, o espetáculo alemão Big in Bombay, a que assisti na terça-feira, é exatamente isso. Na babel de povos e raças que habitavam a Roma antiga, os espetáculos cênicos preferidos eram as pantomimas, sem palavras para atrapalhar, tendência que se observa também no mundo globalizado de hoje. O texto teatral, tão importante para consolidação de idiomas nacionais, cede lugar à dança, a algaravias e esforços circenses. Big in Bombay é tudo isso, somado a um irresistível nonsense que jamais nos permite antever a próxima cena. A caótica cena final dá o tom do que foram todas as anteriores: o elenco fechado numa redoma de vidro, todos lutando contra todos enquanto chuva cai torrencialmente apenas dentro da redoma, e em cima dela uma mulher com a cabeça coberta por um saco, dando machadadas a esmo. Imaginem A Cantora Careca, de Ionesco, adaptado como musical da Broadway por um indiano, e terão uma idéia apenas aproximada do que é Big in Bombay.




Quarta-feira foi a vez de Fernando e Isaura, a versão de Ariano Suassuna para o mito romântico de Tristão e Isolda. Montagem impecável, aproveitamento de recursos cênicos prodigioso. Uma pessoa com uma vela na cabeça convence-nos que é um navio, duas pessoas segurando ramos formam bosques perfeitos.




Em termos de desempenho dramático, nada pode ser comparado à peça de quinta-feira, El Camino para la Meca, com a atriz urugaia China Zorrilla, que encantou o público brasileiro como a velhinha apaixonada pela vida do filme Elsa e Fred. A veterana de 85 anos carrega o espetáculo nas suas costas encurvadas, com uma vitalidade de causar vergonha em tipinhos cansados como eu, que não tenho nem metade da idade dela. O público porto-alegrense não é como o do resto do Brasil, que gosta de ficar aplaudindo o tempo todo, mas os gaúchos não se contiveram e aplaudiram a diva no clímax da peça, quando ela arrebatou toda a platéia do Teatro São Pedro com o gesto singelo de deixar cair uma caneta. O resto do elenco, um senhor e uma bela balzaquiana, estão à altura dessa lição de vida ambulante que é China Zorrilla.